Estamos todos na sarjeta…

“Os Marvels” é um eloquente romance de formação. Como em “Sem fôlego” e “A Invenção de Hugo Cabret”, seus romances anteriores, Brian Selznick trata de perdas, ausências, fugas, rupturas e encontros – novos laços, novos mundos.

Em “A Invenção de Hugo Cabret”, com a morte do pai, sem lugar no mundo, Hugo encontra o cinema; em “Sem Fôlego” um menino em busca do pai, uma menina em busca da mãe, separados por um século, se acham nas estrelas, em museus, maquetes e gabinetes de curiosidades; em “Os Marvels” é a vez de Joseph Jervis, filho de pais pra lá de ausentes, fugir de tudo e ser resgatado por Shakespeare, na figura de um tio até então desconhecido, e tão pária quanto o próprio Joseph.

A viagem de Joseph, de solitário menino fujão a jovem desvendador de mistérios, é ainda mais intrincada que a de seus antecessores, Hugo e Ben. Cabe a ele equacionar uma dinastia de grandes e excêntricos atores shakespearianos que insistem em se misturar à sua própria história. Por vezes, nem Joseph nem o leitor sabem precisar qual o limite entre a realidade e a ficção. Duvida-se até que tal limite exista e esta dúvida/possibilidade é chave do livro e das descobertas do nosso herói.

Em “Os Marvels”, as páginas desenhadas puxam certos fios, o texto outros e, entre imagens e texto, seguimos sem saber se os fios pertencem ou não à mesma história. Nessa tessitura texto/imagem, entre um naufrágio em 1766 e uma fuga em 1990, Brian Selznick mantém a tensão da primeira à última página do livro, equilibrando mistério e poesia, desafiando o leitor: “Ou você vê ou você não vê”. Com dos marvelsesenho ainda mais refinado e uma rede mais complexa de personagens, “Os Marvel” é um romance desafiador e surpreendente para jovens e adultos, uma viagem no tempo em imagem e texto cruzando as histórias através das quais Joseph Jervis fará a mais incrível das travessias – a da infância para a juventude.

“Os Marvels” é uma celebração de uma frase lida por Ben em “Sem Fôlego”: “Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós contemplam as estrelas”.*

Os Marvels 

Brian Selznick

Trad. Santiago Nazarian

Edições SM, 2016

*texto de Eleonora Casali

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