Tormento e O menino do pijama listrado

  

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Resenha de Marcos Almeida (Letras – Alemão UFSC)

TORMENTO conta o drama de Danny, na véspera das férias de verão, justamente naquele momento do ano em que se deve pensar somente em andar de bicicleta, tomar banho nos lagos. Em vez disso, tudo em casa de repente muda. A sua mãe atropelou um menino que se encontra em estado grave no hospital e por isso os adultos mudam de comportamento, ficando irreconhecíveis e mostrando alguns aspectos que até então não tinham revelado. Em cenas de angústia e falta de esperança se alternam duas famílias em crise. Quatro pais perdidos em suas interpretações da realidade, o que, entre culpa e desejo de vingança, lhes impede de olhar o recurso de que dispõem, os filhos que têm ao lado.

O autor, John Boyne, mais uma vez empresta a voz a um menino, que narra em primeira pessoa a sua história incomum. O enredo é cativante e evoca problemas agudos da relação entre crianças e pessoas mais velhas, não apenas os pais. A figura de referência para Danny no preocupado emaranhado da família é o irmão mais velho Pete, de quem sabemos só o suficiente para montar o perfil. Quando é necessário, Pete faz a sua aparição no momento certo, e além dele encontramos Sarah, uma menina enigmática, com o cabelo vermelho, que carrega um segredo que poderia diminuir um pouco a angústia dos mais velhos. Esse segredo é contado a Danny, que o revela em um momento de crise quando tem que defender a mãe da acusação injusta. A tensão aumenta, quando o pai, também descontrolado, não o escuta: “O papai me deu um tapa no rosto… ele nunca tinha me batido antes. Eu o olhei direto nos olhos e tentei segurar as lágrimas.” Daí para o fim, o tormento só aumenta.

Danny nos atinge com sua capacidade de observar, julgar, criar às vezes conexões falsas, tirar conclusões inadequadas, perseguir soluções desvantajosas, se defender teimosamente dos pais, aos quais não entende. As crianças olham e escutam, às vezes espiam os adultos, mas sem malícia, apenas pelo desejo de compreender melhor aquilo que tentamos manter escondido deles. Eles não só observam os adultos, como tentam obter uma ideia mais precisa de como fazer um julgamento que lhes traga a compreensão do que está acontecendo. Em sua necessidade de compreender a realidade, vê-se o constrangimento de Danny em relação à mãe que está sofrendo em meio à confusão, quase se esquecendo dele.

Esta é uma obra para crianças tanto como para jovens e adultos e tem a mesma força narrativa  da história de O Menino do Pijama Listrado.  O impacto de ambas as histórias decorre de uma construção narrativa em que se chega ao abismo, sem perceber ou poder resistir. E o abismo pode ser o maior crime do século XX, como na história ambientada em Auschwitz ou se escondendo em interiores domésticos mais suaves, como acontece em Tormento. Um arame farpado e duas crianças conversando através de uma cerca. A história de Bruno e Shmuel, o primeiro, filho do comandante de Auschwitz, o segundo um menino judeu prisioneiro em um campo de concentração. Duas crianças, um campo de concentração, seus encontros diários, até um epílogo dramático, quando Bruno decide ir além do arame farpado. Vestindo pijama listrado emprestado a ele por Shmuel, começa a explorar o mundo além da cerca. É claro que não é nada do que ele havia imaginado, sem adultos nas cadeiras de balanço ou crianças brincando, somente olhos profundos e cabeças raspadas. Junto com Shmuel é empurrado para dentro de um quarto, a porta fecha, as duas mãos entrelaçadas, a escuridão na câmara de gás, a dor terrível. A história não teria tido a mesma intensidade, com um final tão dolorosamente verdadeiro. Não houve final feliz para a grande maioria das crianças de Auschwitz.

Parece um hábito que caracteriza as histórias de Boyne: seus protagonistas sempre leem autores clássicos, Bruno, o filho do comandante nazista, tentar atenuar a monotonia de Auschwitz com A ilha do tesouro. Danny, em Tormento, adormece com David Copperfield e imita o órfão que deve encontrar o seu caminho no mundo; no decurso de um único verão se torna um adulto.

Gostei muito destes livros, são muito bons, curtos e densos, podendo também ser lidos como um desafio para os adultos: o de olhar as crianças com mais respeito, conscientes de que, justamente nas situações mais críticas, eles precisam ser reconhecidos como capazes de pensar e sentir. Com a desculpa de que eles não são capazes de entender tudo o que acontece, muitas vezes apenas os deixamos sozinhos quando eles mais precisam de nós. Em situações incompreensíveis eles se sentem perdidos e querem somente escutar um “eu me importo com você”.

BOYNE, John. Tormento. Tradução Carlos Alberto Bárbaro. São Paulo, Seguinte, 2014.

BOYNE, John. O Menino do Pijama Listrado. Tradução Augusto Pacheco Calil. São Paulo, Seguinte, 2007.

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