OS REPÓRTERES CLANDESTINOS

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Resenha de Eliane Kraemer Pinheiro

Curso de Letras – Alemão /UFSC

 

A obra, da autora canadense Kathy Kacer, é uma história sobre o holocausto, sob forma de romance biográfico. Esta narrativa tem alguns elementos muito semelhantes aos que são encontrados em diversas obras biográficas – Auschwitz, terror, vidas “roubadas”, famílias esfaceladas. Podemos encontrar estas palavras, cheias de significados que nos remetem à dor e à crueldade do Holocausto em livros como Diário de Anne Frank, onde a protagonista narra, através de um diário, o terror vivido pela sua família, os momentos de silêncio aterrorizador, a descoberta e sua ida para Auschwitz, onde foram exterminados. Há ainda O Pianista, O Menino do Pijama Listrado, A Menina que roubava Livros, que retratam a esperança em meio a vidas reduzidas aos escombros causados pelo holocausto. E, muitos de seus protagonistas são crianças, como identificamos em Repórteres Clandestinos. Pode-se constatar que, no período pós-guerra, inúmeros relatos biográficos e histórias neles inspirados tomaram o interesse dos leitores e muitos deles foram transformados em produções cinematográficas – algumas de grande sucesso.

A narrativa de Repórteres Clandestinos começa no dia 14 de abril de 1942, em Budejovice, uma pequena cidade da Tchecoslováquia, quando o protagonista, John Freund e sua família deixam sua casa, por conta da perseguição aos judeus e vão morar numa comunidade judaica. De lá seu destino seria Therensienstadt, o campo de concentração da Tchecoslováquia, onde seriam aprisionados, mas eles próprios ignoravam a realidade que os aguardava. Lá viveriam sob a segregação imposta pelos nazistas. John Freund era, então, um menino de 12 anos, nascido na pequena cidade onde a população de judeus era uma minoria. Seu pai, Gustav, era um médico pediatra e sua mãe, Erna, era muito culta, entendia de poesia e música e cuidava da família. John também tinha um irmão, Karel, três anos mais velho. Eles frequentavam a sinagoga, assim como outras famílias judias. Na família Neubauer tinha os amigos Beda, Frances e Reina, que foram muito próximos na sua infância e por serem judeus também. Mas, a infância de John era normal, as crianças brincavam sem problemas, a diferença religiosa não era importante nesta época que antecedeu à guerra. O contexto político, no entanto, mudou as relações sociais. O antissemitismo se alastrou por toda a Europa e o pano de fundo deu lugar a uma realidade cruel, o Holocausto, que ocorreu na 2ª Guerra Mundial, como parte de um plano de extermínio étnico dos judeus, patrocinado pelo Estado Nazista liderado por Adolph Hitler e pelo Partido Nazista. Deste fragmento da história européia restaram dados, como a morte de dois terços dos nove milhões de judeus que residiam na Europa antes do Holocausto; mais de um milhão de crianças, dois milhões de mulheres e três milhões de homens judeus morreram durante esse período. E, histórias de amargas lembranças, como esta relatada na obra de Kathy Kacer, entre tantas outras.

O livro relata, então, como  John e seus amigos judeus encontraram um meio de manter a esperança , ao mesmo tempo que consistia numa forma de “luta” contra tudo que acontecia – a  segregação, a falta de liberdade, a escassez de alimentos, a Guerra.  Criaram um instrumento lúdico e ao mesmo tempo sério – um jornalzinho direcionado à comunidade de judeus, que de forma descontraída falava da rotina desses meninos do holocausto – o “Klepy”. O “Klepy” trazia artigos escritos pelos meninos da comunidade e criou uma sinergia de esperança e luta, que lhes dava ânimo para superar as adversidades desse momento de suas vidas.  A esperança estava presente – o futuro poderia acontecer a qualquer momento.

Mas o antissemitismo avançava nos países vizinhos como a Polônia, onde as notícias não eram nada animadoras.  O avanço dos nazistas era assustador e chegou à pequena Budejovice.  Eles seriam transferidos para Theresienstadt, mas a esperança é que lá a vida seria melhor e que, com a posição do pai de John – um médico cujos serviços eram necessários-,  as condições seriam  melhores. Mas, não foi isso que aconteceu. Em Theresienstadt as condições eram piores e mais duras do que em Budejovice.  Lá tinham o “Klepy” e aqui apenas a fé de que o futuro pudesse mudar. Dividiam um quarto com quarenta pessoas  e também a comida – as sopas aguadas e com pedaço de pão bolorento.

Theresienstadt passou a ser uma estação de um destino mais cruel – Auschwitz – e,  a família de John  não foi poupada. Numa manhã fria de novembro de 1943, embarcaram num trem, que habitualmente servia para o transporte de gado, com destino a Auschwitz. Os dezoito meses posteriores foram os piores anos de sua vida. O ambiente em que dormiam eram galpões  de madeira, que abrigavam pelo menos quatro mil prisioneiros, espremidos e sem a mínima condição humana; a alimentação – ainda  mais escassa do que em Theresienstadt – insetos e condições de higiene extremamente precárias. Mas, não apenas isso: ele soube sobre as câmaras de gás, onde milhares de judeus eram arrebanhados para um grande depósito ao mesmo tempo e as portas eram trancadas. Um gás venenoso era liberado no depósito. Nunca mais voltavam. E, em julho de 1944, sua mãe foi mandada à câmara de gás. Seu irmão Karel e seu pai  morreram a caminho de um trabalho fora de Auschwitz –  com tiros. Ele perdera toda sua família e amigos também.

Em abril de 1945 viu diante de si um tanque de guerra americano, que se aproximava – era o fim da Guerra.  John estava com 15 anos e sozinho no mundo.  Retornou para Budejovice e, em março de 1948, deixou a Tchecoslováquia e foi para o Canadá. Antes visitou os lugares onde um dia recarregou junto com os amigos de infância as esperanças e escreviam o “Klepy”.

A maioria dos jovens que haviam sido “repórteres clandestinos” em Budejovice não sobreviveu à Guerra.  John chegou a Toronto, no Canadá em 1948; lá aprendeu inglês, foi à escola e tornou-se contador; casou-se e teve três filhos e dez netos. Em suas lembranças de infância sempre pairam dois sentimentos quando recorda Budejovice:  a alegria, a época de esperanças, o lugar onde nasceu o “Klepy” e o trágico, onde conheceu a segregação, onde começou o período de perdas, medo e terror.

Na década de 70, soube que Irena Stadler estava viva e morava em Praga, mas nessa época a Guerra Fria ainda o impedia de uma aproximação maior. Em 1989, com o fim do regime comunista,  John finalmente foi visitar sua terra natal e reencontrou Irena, amiga e irmã de seu melhor amigo e parceiro do “Klepy” – Ruda Stadler. John estava com 60 anos e Irena tinha 66 anos, nesta época. Ele perguntou-lhe sobre  o “Klepy” – uma pergunta  que há muito queria fazer-lhe. E ela afirmou que tinha as cópias dos jornal – desde a edição nº 1 . A alegria foi extasiante e ambos dançaram juntos de felicidade. Irena os havia recuperado da casa da faxineira, a quem Ruda havia confiado a guarda do acervo do “Klepy”,  quando tiveram que deixar Budejovice, em 1941. Folheando as páginas do “Klepy” ele sentia o peso de sua história nas próprias mãos. Lá haviam os editoriais de Ruda, as colunas de esportes, os poemas e os belos desenhos de Karli Hirsch, fotografias; havia histórias de seu grande amigo Beda e piadas sobre o rabino e o professor Joseph Frisch. Era um milagre os jornais terem sobrevivido.

A amizade com Irena se manteve e, antes de sair de Praga, tirou cópias da coleção completa do “Klepy” e as levou para Toronto, no Canadá. Mais tarde, John e Irena, juntamente com seus filhos decidiram doar toda a coleção do “Klepy” para o Museu Judaico de Praga, na República Tcheca. Todos podem ver lá os originais da criação dos “repórteres clandestinos” e, através da obra de  Kathy Kacer, o mundo pôde conhecer mais uma história em que, muitos que viveram situação semelhante no período do holocausto, podem identificar-se.

 

Referências:

Kacer, Kathy. Repórteres Clandestinos. São Paulo: Callis Editora, 2012.

Sousa, Rainer. Holocausto . Brasil Escola. http://www.brasilescola.com/historiag/holocausto.htm   último acesso 13/10/2014- 8:56

Ferreira, Carlos. Holocausto: Pelo menos 1,1 milhão de judeus foram mortos em Auschwitz. http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/holocausto-pelo-menos-11-milhao-de-judeus-foram-mortos-em-auschwitz.htm  ùlt. acesso 13/10/2014 – 9:00 h

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