A Besta Humana

ABestaHumana_comentado

A Besta Humana (1890), de Émile Zola

Resenha de Antônio Mafra

Curso de Letras – Alemão (UFSC)

A Besta Humana é a 17ª obra integrante da série Les Rougon-Macquart. Histoire naturelle et sociale d’une famille sous le Second Empire1, que pretendia ser um retrato em forma de literatura da sociedade francesa do período compreendido entre 1852 e 1870. A exemplo da Comédie Humaine2 de Balzac, Zola também fez críticas à monarquia francesa e à sociedade de sua época.

Seguindo a tradição daqueles que procuraram descrever a modernidade, conforme o conceito que Baudelaire cunhou quando também na construção e criação literária a partir dos estratos sociais marginalizados pela beletrística, Zola busca uma literatura mais próxima daquilo que seria um retrato da experiência humana, com suas falibilidades e imperfeições. Neste romance, Zola apresenta como leitmotiv o mundo das locomotivas e das estradas de ferro, que integram os diversos elementos e personagens desta trama.

O darwinismo social3, corrente de pensamento muito em voga em sua época, surge na descrição determinista do comportamento de suas personagens, numa época onde a psicanálise inexistia. Os comportamentos que não se enquadravam na boa moral burguesa da época são aqui retratados à exaustão. As teorias darwinistas interpretadas por Herbert Spencer, à luz da dinâmica dos povos, ofereceram atributos para a corrente que afirmava que o progresso humano estava no cerne do desenvolvimento econômico baseado na produção industrial. E este foi o argumento que justificou em grande parte a corrida imperialista que culminaria na Primeira Guerra Mundial. Decorrido o espaço de um século, a humanidade percebia os efeitos da Revolução Industrial que se iniciaram na Inglaterra, as transformações do mundo do trabalho foram mais profundas do que se imaginava, o crescimento e a vida nas cidades levaram à transformação dos comportamentos sociais.

Ao trazer a narrativa para o mundo ferroviário, Zola procurava também uma caracterização dos modos de vida e de experiência humana daqueles grupos, como se pudesse também na literatura aplicar as mesmas premissas científicas presentes na medicina, trazendo a empiria própria do positivismo científico da época ao fazer literário. Este é o coração da narrativa, em minha opinião, pois os arcabouços espaciais (a estação, os alojamentos dos maquinistas e funcionários e etc.), são fundamentais para a ambientação do enredo. Dos dormentes da linha, passando pelas bielas das locomotivas e chegando às estações, Zola também fazia uma literatura como descoberta didática, ao apresentar minuciosamente as maravilhas da modernidade no que diz respeito ao avanço do desenvolvimento técnico e da capacidade criativa da humanidade.

O homicídio que ocorre no trem e o corpo que não chega ao seu destino, encontrado inerte ao lado da linha. A morte que já não tem mais lugar, a literatura que já tinha perdido “o lugar da morte”. O crime cometido pode ter ocorrido em qualquer lugar da linha férrea entre Le Havre e Paris, e a partir do corpo encontrado muitas podem ser as deduções acerca da morte no trem. Os espaços públicos que não são fixos, a morte que se descreve nos lugares mais ordinários.

O crescimento das cidades e a necessidade de lugares públicos que permitissem o acesso das pessoas, fez com que a Paris no período contemporâneo a Zola passasse por uma intensa reconstrução arquitetônica, promovida pelo Barão de Haussmann. Os boulevards e as galerias, casas de comércio e a alta sociedade impunham novas regras às normas sociais. A noção própria de uma reformulação cultural ditada pela representação burguesa na metrópole.

Zola alerta sobre o avanço da máquina e o domínio da técnica nas relações humanas. Inclusive, a este motivo A Besta Humana também poderia aludir: Lantier com sua compulsão por matar as mulheres, um desejo reprimido relacionando prazer e morte; Roubaud na sua violenta fúria de ciúmes e vícios, Cabuche e sua franqueza grotesca (também chamado de besta em algum ponto), a dissimulação de Sevérine “como comportamento feminino inato” ou ainda, simplesmente a locomotiva Lison. Ora descrita como uma mulher, ora comparada a um cavalo ou animal inteiramente domado à vontade humana, a locomotiva é uma besta mecânica que com carvão e graxa percorre a linha entre Paris e Le Havre sob o comando de Lantier. Uma importante reflexão acerca da máquina a serviço da humanidade, para propósitos e designíos elevados, para o progresso e desenvolvimento.

A perda da parcela de humanidade que descreve o comportamento humano das personagens leva à inversão dupla de sentido, o que me parece senão engraçado, mas antes genial, que é a presença de manifestações de verdade na obra por caminhos muito curiosos. Por exemplo, o caso de Cabuche, que chamado ao tribunal é o único ser sensato a dar respostas ao júri, mas que acabou condenado por sua loucura pregressa. O louco era o indesejável, a incógnita e o que não se enquadra aos padrões, o louco (na verdade, o recluso) que diz as verdades indesejáveis e recebe a punição por algo que não cometeu. Estes são elementos ainda mais ressaltados nesta trama onde um assassinato se origina de um crime passional.

Zola foi também um entusiasta da fotografia, que na sua época começou a se popularizar. Seus retratos sociais ou aquilo que ele chamaria de “fotografia das aparências e fenômenos”, retomam em grande parte os conceitos centrais presentes na poética do realismo alemão. Neste romance, percebem-se também as premissas como a purificação ou sublimação (Läuterung) e na transfiguração ou apoteose (Verklärung), como também heranças do idealismo hegeliano, que procurava dotar a literatura de uma realidade purificada e transfigurada a partir do absolutismo da ideia representada. O

mundo e as relações humanas são matérias primas para a construção das obras artísticas, constituem um interessante ponto de partida para tentar atingir os efeitos que o realismo buscava. O naturalismo que Zola fundou vai explorar estes propósitos até os mínimos detalhes.

Conforme Fontane4:

O Realismo na arte é tão antigo quanto a própria arte, sim, ainda mais: o realismo é a arte. Nosso rumo moderno não é mais do que um retorno ao único caminho certo, a recuperação que não poderia faltar a um doente, enquanto seu organismo ainda for capaz de viver (FONTANE, 1853).

Se no Realismo ainda poderíamos perceber um conflito entre o homem e a natureza, no sentido da busca por uma linguagem que satisfizesse a completude da mensagem exprimida, em Zola a relação humana consigo mesma é ainda mais evidente. A partir do saber e da linguagem médica ele cria o Naturalismo, que dissecava os diferentes mundos e formas de vida humana tendo como meio impresso a linguagem mais corrente na época: os jornais. É exatamente esta linguagem dos jornais que faz com que sua obra seja objeto de estudo também para historiadores, uma vez que tinha

como propósito ao escrever buscar a descrição de uma época da forma mais precisa possível.

Da mesma maneira que a linguagem dos jornais, as ilustrações e imagens seriam, segundo os escritores naturalistas, também elementos constituintes da narrativa. Pois representariam uma condição de verdade na forma de fragmentos visuais, que poderiam balizar uma possível descrição do que seria a realidade quando na composição literária. Não por acaso, o apogeu deste tipo de narrativa coincide com o nascimento da criminalística, que procurava dotar a medicina de meios que comprovassem ou justificassem determinadas “anomalias” sociais. Assim surgiram as controversas teses

de Cesare Lombroso, onde mediante certas características físicas poder-se-iam identificar criminosos em potencial. Isto também pertencia ao imaginário cultural do período, numa época onde ainda não haviam surgido os conceitos que as ciências humanas empregariam mais tarde como “relativismo” e “alteridade”.

Zola bebe no cientificismo de seu tempo e, deste, faz uma literatura da observação e da ambientação, descrevendo os Rougon-Macquart como o retrato social de uma época. Poder-se-ia também acreditar que A Besta Humana fosse como a

pintura, que buscasse a descrição mais próxima possível daquilo que seria uma fotografia. E deste individualismo e ingularidade também são acometidas as personagens, uma possibilidade de se buscar a compreensão da construção narrativa nesta obra.

1 Os Rougon-Macquart. História natural e social de uma família de uma família no Segundo Império trata de um ciclo de 20 obras publicadas por Zola de 1871 a 1893. Nesta série está a obra mais conhecida e famosa de Zola, Germinal.

2 A Comédia Humana, em referência à Divina Comédia de Dante Alighieri, era como Balzac passou a se referir à sua obra a partir de 1842, constituída de ensaios, romances realísticos, histórias curtas, contos, 25 obras inacabadas e também 8 obras iniciadas, concebidas entre 1822 e 1825. Até sua morte, Balzac concluiu 91 dos 137 romances e narrativas que a integravam.

3 Dentre outros, o darwinismo social era o que havia de mais moderno no pensamento humanista do século XIX. A partir dos estudos relacionados à adaptação de seres vivos presentes na Origem das Espécies de Charles Darwin, esta corrente de pensamento se apoiava no conceito de raça e adaptação social para explicar o desenvolvimento e progresso mundial a partir das sociedades européias após a Revolução Industrial.

4 Tradução nossa para: “Der Realismus in der Kunst ist so alt als die Kunst selbst, ja, noch mehr: er ist die Kunst. Unsere moderne Richtung ist nichts als eine Rückkehr auf den einzig richtigen Weg, die Wiedergenesung eines Kranken, die nicht ausbleiben konnte, solange sein Organismus noch überhaupt ein lebensfähiger war.” FONTANE, Theodor. Unsere lyrische und epische Poesie seit 1848.

Disponível em: https://www.uni-due.de/lyriktheorie/texte/1853_fontane.html. Acesso: 23/10/2014

Autor: Émile Zola

Tradução e apresentação: Jorge Bastos

Edição comentada e ilustrada: Zahar

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