O alfabeto dos pássaros

A presença da voz no Cuco que fala

Resenha de Cilene Trindade Rohr

Curso de Letras (Alemão) UFSC10042014172724_alfabeto_passaros

O livro O alfabeto dos pássaros, da escritora Nuria Barrios, traduzido do original El alfabeto de los pájaros por Carla Branco, ilustrado por Catarina Bessel e publicado em 2014 pela editora Cosac Naify, narra a trajetória de uma menina que busca, por meio de estórias, resgatar as reminiscências de suas origens uterinas para entender o porquê de ter sido rejeitada ao nascer. A dor da menina é, momentaneamente, abrandada através de narrativas fantásticas contadas pela mãe adotiva que tenta, a todo custo, evitar que ela sofra com o deslocamento de sua terra natal – a China. Dentre os tantos aspectos instigados pela autora, o que se sobressai é a busca incansável do ser humano dotado de uma incompletude e que, por isso, vive em busca de respostas para entender o mundo e os mistérios das coisas a partir dos seus questionamentos.

A pequena Nix, como é chamada, começa a questionar seus pais, sobretudo sua mãe, a respeito de seu passado, seu nascimento, sua mãe biológica etc. Seu comportamento intempestivo se sobressai de tal maneira que irrita seu pai, e leva sua mãe a perder o controle da situação e a se questionar se a culpa não seria sua, pois muitas vezes foi aconselhada pelo marido a não encorajar a menina com estórias fantasiosas sobre suas origens. O que parece ter sido o ponto crucial para o início dos questionamentos de Nix foi a estória de que tem um dragão dentro de si que a leva a querer desbravar o mundo em busca de respostas. Contudo, dentre as tantas narrativas contadas pela mãe, a que mais impressiona Nix é a de que é uma menina pássaro. Essa metáfora importante no livro será o fio condutor que guiará a menina ao caminho de volta às suas origens uterinas.

A narrativa é marcada por uma forte literaliedade que se estabelece pela presença de uma voz, sobretudo pelas onomatopeias que permitem a movência textual, aproximando o leitor da estória e levando-o a resgatar a memória de um tempo. Segundo Paul Zunthor (1997), a voz é a instância primordial para a qual o homem tenta retornar e a literatura, ainda que seja voz capturada e inscrita, possibilita, pelos índices de movência e performance do texto, o retorno a essa instância primordial. (p. 12).

Assim é que se observa na narrativa um jogo com as palavras criando metáforas que levam a uma compreensão da palavra como algo que marca o início do caos da dúvida, pois em certa altura a narradora diz que da boca da mãe saiam pássaros, pois há palavras que tiram nossos pés do chão e nos levam com elas pelos ares. Além disso, o pai da menina chega a pedir que a mãe não encha a cabeça da menina de pássaros. É como se as palavras pássaros da mãe levassem, cada vez mais, a menina para longe de seu lar adotivo. Essa pode ser uma partida branda, natural e normal como o simples correr das águas em direção ao mar, tendo que pegar caminhos, muitas vezes, tortuosos e apertados como os de alguns rios em que a água precisa ficar, por um tempo, ali parada, à espera de uma chuva forte de inverno que a impulsione adiante. Assim é, também, com a natureza humana. Contudo, para alguns pais, essa partida pode ser muito dolorosa. E, de fato, foi assim para a mãe de Nix, mas, sobretudo porque – como observará o leitor – essa partida é a dor de uma saudade que não finda.

Em certo momento da estória, a narradora define as palavras como palavras ar, ou seja, palavras ao vento que facilmente se esvaem porque não têm uma estória coerente e são como a menina que perdeu sua base sólida, pois não sente que o lar onde vive é o seu de verdade. Apesar dos esforços de sua mãe adotiva para confortá-la, Nix se sente, literalmente, como um pássaro fora do seu ninho, tanto que pede à mãe adotiva que a leve de volta à China para procurar o ninho que ela nomeia barriga da mamãe da barriga – o lugar para onde Nix deseja retornar para tentar entender o porquê da rejeição.

Nessa empreitada em busca de suas respostas, Nix contará com a ajuda do Cuco, único pássaro capaz de ajudá-la, pois somente essa espécie sabe refazer o caminho de volta porque conhece a experiência de viver num ninho adotivo. Além disso, é somente pela linguagem dos pássaros que a menina será capaz de reaver a memória de um tempo que está na origem uterina segura e aconchegante da mãe, de onde não queríamos sair, pois a entrada no mundo é o caos que nos leva a esquecer das reminiscências de uma vida anterior a esta.

A voz do cuco é a voz da consciência de Nix convidando-a a refazer o caminho revés, ou seja, pela voz ela é guiada ao ventre de sua mãe. É uma espécie de retorno ou renascimento em busca de respostas que ficaram num passado que se esqueceu, mas que se encontra dentro de cada um de nós e que só podemos reaver se refizermos o caminho de volta para chegarmos ao fim do começo de tudo.

Ao fim o desejo de Nix se realiza. Ela retorna ao ovo de sua origem e percebe que nada ali lhe era hostil, nada lhe era estranho, nada lhe era alheio: nem a cor nem o cheiro nem o som nem o tato. […] A menina se encolheu, meteu o polegar na boca e, chupando-o, deixou-se levar pela memória do corpo, anterior à linguagem, anterior às lembranças. O retorno do corpo antes da existência da linguagem marca o fim e o recomeço, onde a forte presença da oralidade está associada ao primitivo como origem, mas, também, está associada à necessidade constante do ser humano de re/atualização ou ritualização de um locus primordial que constitui o homem. Pois o que resta em Nix é a presença de uma voz, que, segundo Zunthor (1997), é aquela que: Jaz no silêncio do corpo como corpo em sua matriz. Mas, ao contrário do corpo, ela retorna a cada instante, abolindo-se como palavra e como som. Ao falar, ressoa em sua concha e eco deste deserto antes da ruptura, onde, em surdina, estão a vida e a paz, a morte e a loucura. O sopro da voz é criador. (p. 12)

Referências bibliográficas:

 ZUMTHOR, Paul. Presença da voz in: Introdução à poesia oral. Trad. Jerusa Pires Ferreira, Maria Lúcia Diniz de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.

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