De Patrick Modiano, Nobel de Literatura: Filomena Firmeza

Filomena

Lembranças do pai

Resenha de Cássia Sigle, aluna de Letras (Alemão), UFSC.

No dia 09 de outubro de 2014 foi concedido o Prêmio Nobel de Literatura ao escritor francês Jean Patrick Modiano, pela “música discreta” e por “sua habilidade de trabalhar com a memória e de resgatar [o] período sombrio da Segunda Guerra Mundial” (Veja, 2014)[1]. Modiano tem 69 anos, e, segundo Lucas Neves e Raquel Cozer, sua literatura pode ser comparada à de Proust, autor de Em Busca do Tempo Perdido, pela arte de memória: “[…] evoca os destinos humanos mais incompreensíveis e descortina a ocupação nazista na França” (Folha de São Paulo, 2014)[2]. Um dia após a premiação, a Editora Record comprou o direito para publicação de três de seus livros; “Remise de Peine” (1988), “Fleurs de Ruine” (1991), e “Chien de Printemps” (1993), na Feira do Livro de Frankfurt. A publicação desses livros no Brasil ainda não tem data prevista.

O romancista nasceu nos arredores de Paris, logo após a Segunda Guerra Mundial em 1945. Seu pai era judeu, sua mãe, uma artista belga. Sua infância é marcada pelo tempo pós-guerra e pela perda do pai e do irmão caçula aos 10 anos de idade.

Ao todo, Modiano escreveu 28 romances e ganhou vários outros prêmios: o Oscar pelo melhor filme estrangeiro em 1974 (Lacombe Lucien) para o qual coescreveu o roteiro; o Grand Prix du Roman de l´Academie Française em 1972 (Les Boulevards de ceinture),  o Goncourt em 1978 (Rue des boutiques obscures), o Grand Prix National des Lettres em 1996 e o Prix Marguerite Duras em 2011. Em suas obras, o autor integra ficção, fragmentos biográficos e históricos, em temas relacionados à busca da identidade, a mudanças sociais, à história francesa e à figura paterna, segundo a apresentação feita em seu primeiro livro editado no Brasil neste ano do Nobel, pela Cosac Naify, como literatura juvenil.

Trata-se também da única tradução atualmente disponível no mercado[3], Filomena Firmeza, tradução de Catherine Certitude, feita por Flávia Varella. O livro trata da boa relação entre filhos e pais, mostrada como base indispensável na fase inicial da vida. Nessa fase, todos se deparam com situações conflituosas, tendo em vista que o mundo nem sempre é como desejamos. Para compreendê-lo e saber lidar com os desafios constantes, é fundamental o amor dos pais.

No romance Filomena Firmeza, a boa relação entre o pai, Georges Firmeza, e a protagonista, a filha Filomena, é o fio condutor da história. Quando adulta, professora de dança morando em Nova York, Filomena gosta de recordar o tempo em que vivia em Paris com o pai. Naquela época, sua mãe já tinha voltado para os Estados Unidos, esperando por eles num futuro próximo. Até esse reencontro acontecer, Georges e sua filha fizeram sua vida em um bairro de Paris, o décimo  arrondissement, em cima de uma loja da qual o pai era sócio junto com o Sr. Raymond Casterade. A vida de Georges e Filomena era marcada pela convivência autoritária com Raymond e pelas regras impostas pela sociedade, como a boa conduta na escola de dança, as regras da empresa, dos clientes e do governo, e a fútil high society. Tudo isso não influenciava o humor e o ânimo de Georges, um pai paciente que nunca faltou com o respeito e o amor para com a filha querida e também para com os outros.

Modiano cria a personagem Filomena, uma amante do ballet, que narra com eu-lírico, através de uma linguagem simples, mas, ao mesmo tempo, elegante, empática e figurativa. O pai, Georges, guia sua filha em um mundo no qual é preciso diplomacia, tolerância e boa educação. Não importa se é na escola de dança onde a acompanha ou no restaurante aonde vão duas vezes por semana, ou na festa glamurosa da melhor amiga de Filomena, Georges é o exemplo para sua filha, com seu comportamento humano e educado. Ele é seu melhor amigo, quem lhe conta do passado e do presente, que a deixa sorrir e se mostra sempre parceiro em tudo. E ele lhe ensina um truque muito importante através do qual eles conseguem se afastar da rigidez da vida: tirar os óculos quando quer fugir do mundo real ou quando algo está lhe perturbando, o que pode ser, por exemplo, o jeito autoritário do Sr. Casterade, diariamente. Um trecho do livro resume bem a felicidade e a harmonia da relação entre pai e filha, em uma cena na loja de Georges:

 E eu subia na balança com ele. Ficávamos lá, os dois, as mãos do papai nos meus ombros. Não nos mexíamos. Era como se fizéssemos pose diante da lente de um fotógrafo. Eu tirava meus óculos e papai também tirava os dele. Era tudo suave e nebuloso em torno da gente. O tempo parecia ter parado. Sentíamos-nos bem.

Um elemento muito rico do livro de Modiano são as ilustrações de Sempé, um dos mestres do cartum mundial. Em seus desenhos precisos e líricos, ele retrata uma Paris bem-humorada, mas não poupa sutis críticas à cidade. E mais ao final do livro Filomena Firmeza, o cartunista até teve de se arriscar a desenhar o cenário de Nova York. As ilustrações são tão ricas e cheias de detalhes que somente as imagens, desacompanhadas do texto, poderiam criar a história narrada. Cada ilustração representa uma cena importante no livro e o cartunista retrata cada cena com precisão e fidelidade ao autor. Ao observar os desenhos, parece que entramos no mundo narrado, ouvindo a pequena Filomena contando do seu passado, cheio de carinho pelo pai.

O leitor desse romance pode ser transportado para sua própria infância. Em alguns casos, seus antepassados podem ter vivido naquela época pós-guerra e terem sido levados para longe de suas famílias. Sabe-se que algumas famílias europeias até recomeçaram sua vida no Brasil, como imigrantes. De alguma forma, cada um de nós busca o caminho do amor, da preocupação pelo outro e do carinho, e Modiano, de maneira sensível e empática, quer alertar a sociedade moderna exatamente para dar valor ao lar e à convivência em harmonia e com amor.

Esse livro é indicado para qualquer faixa etária, desde o teenager, que está buscando explicações para muitas dúvidas em relação à vida, até o idoso que tem a virtude de compreender finalmente que talvez fosse melhor não levar tudo tão a sério.

[1]      http://veja.abril.com.br/noticia/entretenimento/premio-nobel-de-literatura-vai-para-o-frances-patrick-modiano

[2]      http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/10/1529891-patrick-modiano-e-definido-como-proust-do-nosso-tempo-por-academia.shtml

[3] É possível encontrar em sebos virtuais os livros de Modiano já traduzidos no Brasil e fora de catálogo da editora Rocco: Uma rua de Roma ; Ronda da Noite; Dora Bruder; Vila Triste; Do mais longe do esquecimento; Meninos valentes.

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