Uma Clareira no Bosque

137155710Menos de cem páginas e dezessete capítulos curtos, e me foi difícil chegar à última página. Li o primeiro capítulo e, ao chegar ao final, quis reler, e assim com o segundo, e com os outros. A cada pausa na leitura – e aconteceram três em vários dias- retomava a leitura do começo. Foi assim como quando a gente está ouvindo uma coletânea de músicas e quer ouvir e ouvir e saborear letras e acordes, porque faz bem ao coração e nutre o intelecto.

A prosa de Gilka Girardello é despretensiosa, pega na mão do leitor e, com carinho, o guia pelas sendas da teoria por detrás da arte de contar histórias. Suas bases teóricas e a larga experiência aparecem sutil e naturalmente aqui e ali, mas o que é mais visível é o talento e o prazer de contar, seja um conto ou a história de um conto, ou como é contar um conto, ou os efeitos da atividade de contar na formação de qualquer pessoa, seja ela mestre, criança ou genitor.

A autora exercita também na feitura de seu livro o que prega uma de suas principais influências, Marie Shedlock: “ A arte de esconder a arte”. E isto só se consegue com muita prática e gosto pela literatura, já que a falta de esforço aparente do contador, que tem um efeito reconfortante no ouvinte, é alcançada “ quando se está ‘saturado’ das imagens da história, ‘empapado’ delas como uma esponja molhada, mergulhado nas cenas e emoções do conto”.

O uso da primeira pessoa na narrativa é arriscado, facilmente pode escorregar para o monólogo intimista e pessoal, auto centrado, mas isto não acontece em “Uma clareira no bosque”, porque Gilka estabelece um diálogo fluido, habituada que está a ensinar professores e crianças.

Não é um manual, mas mostra ferramentas diversas úteis para quem quiser contar bem, seja com a finalidade de divertir, de aliviar sofrimento, de educar ou de incentivar o gosto pela literatura.

Contar é bom, ouvir é essencial. Gilka o demonstra ao enfatizar a importância da regularidade das rodas de histórias (ou encontros para contação): “que elas aconteçam todo final de tarde ou uma vez por semana ou por mês. Ou em todo dia de chuva. Ou em todo dia em que alguém da sala fizer aniversário”. Isto faz com que os participantes prestem atenção às situações do cotidiano que frequentemente são fontes de boas histórias. Um caso contado numa refeição, uma piada, uma criança contando a outra um caso de assombração, uma mulher que confidencia a outra o resultado de um exame médico, a decisão de um júri no tribunal, lembranças de um primeiro namoro, os desassossegos, pequenos fracassos, medos e paixões, tudo são retalhos que podem ser utilizados para nos permitir “viver plenamente um prazer dramático”.

O texto estimula em nós a evocação de memórias que pareciam perdidas no tempo e que podem ser histórias a contar. O tempo, que nos dias velozes de hoje parece um inimigo, passa a ser um aliado quando “seguramos o tempo por alguns instantes nas mãos, como um pássaro que pulsa antes de voar”.

Trata-se de obra de presença obrigatória na biblioteca de qualquer pessoa que se interesse pela atividade de contar histórias.

Título: Uma clareira no Bosque
Autora: Gilka Girardello
Editora: Papirus, 2014

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