Frritt – Flacc

 

60ca6d2f-1020-490e-a59f-c946aba77aa3Júlio Verne, aquele de Cinco Semanas em um Balão, Viagem ao Centro da Terra, Vinte mil Léguas Submarinas, só para citar alguns de seus mais de oitenta romances de aventura, quem diria, escreveu também contos. Este, que toma características de fábula com os personagens desenhados como animais antropomorfizados, é suspense puro. O formato do livro é grande, o texto é curto, contundente.

 

O vento Frritt e a chuva Flacc dominam o cenário de uma cidade fantástica à sombra de um vulcão, o Vanglor. Luktrop, a cidade à beira do mar de Megalocride, nos faz pensar em países nórdicos ou nos confins da Patagônia. Entretanto, ela existiu na imaginação do escritor, e existe agora na fantasia de quem lê o texto de Verne e as imagens de Alexandre Camanho. Este ilustrador paulistano utiliza extrato de nogueira em um desenho solto e ao mesmo tempo preciso, que sangra as folhas duplas pelas quatro bordas. O claro-escuro entremeado de cores quentes em poucos lugares bem escolhidos mergulha o leitor, fundo, na história. Não é preciso saber o que são onomatopeias para se divertir com os nomes inventados para lugares e personagens. Nomes cheios de K e de Z, gostosos de pronunciar.

 

Em uma das primeiras páginas um velho, com cabeleira à moda de Luis XIV, com um fole sobre a cabeça, toca um violino com o arco ligado por um fio ao fole, que sopra, e sopra… uma fabulosa representação do vento.

 

Texto e ilustração cooperam na criação do suspense e na elucidação dos enigmas que vão surgindo. Quem é a figura que caminha na chuva, sob uma pesada nuvem negra, escondida pelo guarda chuva?

 

Em uma página a cidade de Luktrop é vista de frente, na seguinte é vista do alto, um uma perspectiva de ilusão.

 

Várias vezes um personagem é apresentado em imagem e depois de várias páginas no texto, de forma a surpreender a compreensão do leitor. Isto cria uma certa tensão entre as duas linguagens, imagem e texto, que alimenta a curiosidade. Um exemplo está na cena onde o médico finalmente decide sair de casa para atender um paciente pobre à beira da morte, e só o faz porque a mãe deste diz que vai vender a casa onde moram para poder pagar a consulta. Quando li: “o sovina doutor Trifulgas assobia para Hurzof , coloca no pescoço do animal uma pequena lanterna e toma o caminho do mar” imaginei o médico montado em seu cavalo Hurzof, mas a ilustração da página seguinte mostra o cachorro buldogue e o médico, seguidos pela velha.

 

…”Que tempo cheio de Frritts e de Flaccs! …E que caminho! De pedras e cinzas – as pedras, com lodo, escorregam, as cinzas crepitam como carvão em brasa …Algumas vezes, no meio das labaredas expelidas pelo Vanglor, contorcem-se imensas e grotescas silhuetas. Não se sabe de fato o que há no fundo dessas insondáveis crateras. O doutor e a velha seguem agora o contorno das pequenas bacias do litoral. O mar é branco, de uma brancura lívida – um branco de morte. Ele cintila ao encontrar a linha fosforescente da ressaca, como se derramasse potes de vagalumes sobre a praia.”

 

“Não sei se é verdade, mas coisas estranhas acontecem nesse país volsiniano, principalmente nas proximidades de Luktrop!”

Título : Frritt-Flacc
Autor : Júlio Verne
Tradução: Renata Calmon
Ilustração: Alexandre Camanho
Editora: Pulo do Gato, 2013

 

O desenlace do conto é surpreendente, filosófico. Confira.

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