Os olhos do cão siberiano

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“Não sabia nesses anos – e não estou certo de que saiba agora – mas suspeito que a gente se torna leitor para completar o inacabado. Para se completar. E, com o passar dos anos, com a mudança do gosto, parece mentira que a gente tenha gostado um dia de certas histórias, que depois achamos horríveis.”

Quem assim filosofa sobre a leitura é um jovem narrador de uma história pungente, a de um menino que enfrenta uma dura realidade: seu único irmão, treze anos mais velho que ele, sai de casa, de uma forma violenta e misteriosa. Agora, adulto jovem, o narrador tem o distanciamento necessário para contar a sua versão da tragédia familiar.

Através do olhar da criança vivenciando um drama que não consegue entender, conhecemos pouco a pouco a rigidez do pai bem educado, socialmente bem sucedido e bem intencionado; o sofrimento da mãe covarde; os preconceitos e a hipocrisia de um grupo social; tudo mascarado num silêncio providencialmente quebrado pelas atitudes da avó lúcida e amorosa.  A aproximação corajosa com o irmão que tem Aids permite o amadurecimento emocional do narrador, que nos conta do medo do confronto com o pai, da desilusão com o amigo íntimo, do sofrimento da família esfacelada por diferentes dores, até  a dor maior, a da perda, com a aceitação da morte  e da realidade familiar.

A epígrafe pinçada da obra de Antonio Tabucchi – “Você não acredita que é isto, precisamente, o que a literatura deve fazer: provocar desassossego?” – é o fio precioso que costura a narrativa. Desassossego, sim, mas também aconchego e hospitalidade. A solidão e as angústias do seu protagonista são atenuadas pela leitura de livros afetuosamente selecionados por uma verdadeira livreira: “Eu devia à Clara o fato de me ter  tornado leitor. Ela sempre me tinha recomendado bons livros e sabia me sugerir o título conforme meu ânimo. … Acho que Clara foi meu primeiro amor. Imaginava que aqueles livros tinham sido feitos só para mim. Que não havia outros clientes a quem recomendá-los”.

Bem escrito, sem escorregar na denúncia e na catequese do falso moralismo, a novela do argentino Antonio Santa Ana é na verdade um curto e intenso romance de formação, muito bem traduzido por Antonieta Cunha.

O projeto gráfico é primoroso, desde a capa que conversa com as belas e contidas ilustrações em p&b, quase vinhetas adequadamente distribuídas em todo o livro, até os pequenos toques no acabamento, tais como a numeração incomum e a  moldura das páginas. Nota-se no livro a concepção e execução singulares, a obra do designer gráfico e ilustrador Rubem Filho.

Merecedor do prêmio concedido pela FNLIJ como o melhor livro para jovens traduzidos para o português em 2012.

Autor: Antonio Santa Ana

Tradutora: Antonieta Cunha

Projeto gráfico, capa e ilustração: Rubem Filho

Editora: Dimensão, 2012.

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