Literatura Infantil e Abuso

antonioA questão do assédio sexual na infância tem sido bastante discutida em vários setores de nossa sociedade, mas até onde eu saiba, não havia ainda sido abordada na literatura infantil brasileira. Neste sentido, o livro Antônio é pioneiro. Hugo Monteiro Ferreira e Camila Carrossine, autores do texto e das ilustrações, respectivamente, escolhem a metáfora como meio de abordar o que acontece a Antônio, menino que, como qualquer criança que sofre abuso sexual, não sabe o que é pedofilia, mas intuitivamente sabe que algo proibido e prejudicial está acontecendo entre ele e o adulto.

A leitura da história vai incomodando, entristecendo, enraivecendo o leitor adulto, testemunha do surgimento do conflito, que se intensifica, até que se resolve nas últimas páginas com um final feliz. Com narrativa sutil e ilustrações delicadas, o livro evidencia a solidão, o medo, a impotência da criança diante das ameaças do adulto que não desperta desconfiança por parte dos pais que, embora amorosos e preocupados com os sinais de estresse em Antônio, trabalham muito e possuem pouco tempo para o filho.

Uma criança que sofreu ou sofre abuso, ou possui amigos que passaram pela experiência, sentir-se-á no mínimo menos solitária ao ler o livro.

Entretanto, sua leitura poderá exercer algum mal desnecessário a crianças que desconhecem este tipo de violência? Estas crianças, que felizmente são a maioria, ganham alguma coisa ao serem confrontadas com essa problemática?

Bem, minha aposta é a de que estas crianças farão uma leitura superficial do livro, não gostarão muito dele por não conseguirem desvendar a metáfora da mão que faz coisas que Antônio não gosta e da qual tem muito medo.

Fizemos no NEP – Núcleo de Estudos e Pesquisas da Barca dos Livros – a experiência de escolher algumas crianças com leitura fluente e oferecer a elas o livro. Verificamos que a suspeita era fundada. Crianças que não vivenciaram assédio simplesmente acharam o livro esquisito e não gostaram da história, que viram como obscura. Quando perguntadas sobre o significado da mão e sobre o que acontece a Antônio, algumas responderam que não entenderam e uma delas achou que a mão era uma bruxa malvada.

Antônio é sem dúvida um livro que pode ajudar crianças como Antônio, pode dar-lhes coragem de denunciar uma possível “mão”, identificada muitas vezes como um amigo próximo da família ou um parente. Além disso, é um bom material para professores e pais que desejem introduzir a problemática.

Minha resposta à segunda pergunta acima é afirmativa. Adultos que conversam com as crianças sobre pedofilia e discutem com elas sem subestimá-las estarão contribuindo para a prevenção da prática e para que as vítimas possam defender-se e superar experiências traumáticas.

Título: Antônio
Autor: Hugo Monteiro Ferreira
Ilustradora: Camila Carrossine
Editora: Escrita Fina, 2012

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