Clarice, Caio e suas filhas

As frangas, de Caio Fernando Abreu

As frangas, de Caio Fernando Abreu, não é a pedra de toque das produções literárias do autor. O destaque do livro é evidente, possivelmente, por uma informação que, de certo modo, nos é preciosa: é o único, de seu acervo, dedicado ao público infantil. Mas o escritor, coerente consigo mesmo e com seu público, no início da narrativa, já se coloca em segundo lugar, alertando e justificando [para o leitor] a fonte de tal história que, por meio da dedicatória que a precede, denuncia aquela que é a “rainha do ovo e das galinhas”, Clarice Lispector. No primeiro parágrafo do livro, diz: “Acho que a melhor história sobre galinhas que eu conheço chama-se A vida íntima de Laura.” (ABREU, 2012, p. 9).
A fonte e a influência reveladas, sem qualquer impedimento, como homenagem e débito; a origem anunciada. Se, quando tratamos de galinhas, somos assaltados pela dúvida – paradoxal, eu diria – “do que veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, quando pensamos em ovo “e” galinhas temos uma resposta possível: Clarice Lispector. Porque Laura e sua vida íntima intimam muito predecessores. O escritor gaúcho mencionado, assim se sentiu, assim proferiu e, por conta de Laura, fez ressurgirem oito desdobramentos, oito descendentes, oito galinhas, ou, para usar a preferência nominal do autor, oito frangas. Laura é, poderia ser, a progenitora dos ovos de que surgiram suas filhas. Franguinhas sutis, apaixonadas, reversas. Assim são Ulla, Gabi, Maria Rosa, Maria Rita, Maria Ruth, Otília, Juçara e Blondie. Oito eternas frangas, tantas histórias e um aspecto em comum: a convivência compartilhada sobre a geladeira. Feito enfeite, o que de fato são, cacarejam, cada qual, suas histórias, suas línguas, suas manias e de(s)feitos.
A longa descrição do pátio, da memória da infância, que toma partido na primeira parte do livro, quase nubla os encantos do autor. Mas Caio é Caio, e a história vai tendo sabor de graça, de descompromisso, de desapego:

“(Vocês repararam como estou dispersivo? Dispersão é quando a gente começa a contar uma coisa, aí interrompe e começa a contar outra, no meio daquela, depois começa a contar de novo a primeira coisa, e interrompe também para contar uma terceira. Por aí vai. Prometo que daqui a pouco vou me controlar. Mas por enquanto estou bem dispersivo mesmo.)”. (ABREU, 2012, p. 16).

Um Caio que vai e vem oscilando entre um passado e um presente. Como se, consumido de uma “crise de criação”, olhasse de relance para geladeira e, num lance de dados, tivesse o estalo, a oportunidade, a possibilidade, o surgimento de uma história: a geladeira-terreiro, das oitavadas descendentes, contrariando a moda antiga de que bonito mesmo era ter pinguins na geladeira.
Um Caio cheio de Abreus, aberturas e ventoinhas, permitindo que as palavras se escorreguem pelo texto naturalmente, com seus ares de graça, quando rememora a terceira parte do pátio:

“Mas você sabia que os plantadores botam remédio nesses legumes para eles crescerem mais, e mais depressa? Juro que é verdade: esses remédios são o maior veneno. Então, pensa bem: se plantar você mesmo o seu legume, você não vai botar veneno nele, certo? Nem vai se importar se ele não crescer muito, porque não vai precisar chamar a atenção de ninguém na feira”. (ABREU, 2012, p. 20).

Em alguns momentos, podemos ter a impressão de que a história é um ensejo (para não cair nas malhas do pretexto), para que Caio caia em nova dispersão: “Agora pensei outro pensamento de gente grande. É assim: vezenquando, uma coisa só começa mesmo a existir quando você também começa a prestar a atenção na existência dela. Quando a gente começa a gostar de uma pessoa, é bem assim” (p. 23). Em páginas adiante, retoma esse fio, em novo diálogo com o leitor, costurando dispersões em dispersões: “Como é que a gente vai explicar para uma pessoa que qualquer coisa pode ser de verdade, é só a gente acreditar nela?” (p. 38).
O retorno de um livro enevoado pelo tempo, rememorado, em terceira edição, pela Editora Nova Fronteira (2012). A primeira publicação aconteceu pela Editora Globo, em 1988, e dados (constantes do site das editoras), certificam que, o livro em questão, recebeu, no mesmo ano de sua publicação, a Medalha de Altamente Recomendável pela FNLIJ. Mas o que importa é que As frangas, após A vida íntima de Laura, dão uma boa canja em matéria de leitura.

Título: As frangas

Autor: Caio Fernando Abreu

Ilustrações: Suppa

Editora: Nova Fronteira, 2012

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