Sobre pijamas listrados e cercas

Sugestão de Leitura de Tanira Piacentini

Era uma vez um menino alemão chamado Bruno. Morava em Berlim, tinha 9 anos, uma irmã de 13 – Gretel, que ele chamava de Caso Perdido – , uma mãe meiga e submissa, e um pai importante, bonito em seu uniforme cheio de medalhas, que era amigo do Fúria e foi, a mando dele, ser comandante de Haja Vista, um lugar (Bruno só soube depois) que ficava na Polônia.

Lá Bruno conheceu um menino magro, de olhos tristes, que morava do outro lado da cerca, numa cidade cinza e suja onde todos usavam pijama listrado: “Havia meninos pequenos e grandes, pais e avôs. Talvez alguns tios também.E algumas daquelas pessoas que vivem sozinhas nas ruas da vida e não parecem ter parentes. Era gente de todo tipo”.

Bruno e Gretel não entendem que lugar é aquele e quem são essas pessoas. “Quem seria capaz de construir um lugar tão assustador?” – pergunta Gretel, que aos poucos não pergunta mais. Bruno ainda quer entender, pergunta aos pais, aos empregados, mas depois conhece Shmuel, que mora do outro lado da cerca e também não entende porque está ali, porque saíram de sua cidade, porque sua mãe foi afastada dele, de seu irmão e de seu pai, porque todo dia algumas pessoas vão embora e não voltam mais. Bruno então pára de perguntar, pois finalmente encontrou um amigo, a quem visita diariamente, às escondidas, um segredo só dele. Continua sem entender, mas pressente que é melhor ninguém saber de suas “aventuras”.

Manoel de Barros ensina, em “Memórias inventadas – a infância”: “Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore.” Eu completaria: de dois meninos e uma cerca, que não era sua, mas foi. Encostados nela, cada um do seu lado e muitas vezes costas apoiadas em costas, conversavam sobre suas vidas, o antes e o depois da cerca – família, amigos, sonhos, desejos, brincadeiras preferidas.

John Boyne, jovem escritor irlandês, constrói uma linda história de amizade, respeito, esperanças, desassossego e alguma comida partilhada por dois meninos separados por uma cerca. Esse mundo nos é mostrado através do olhar, da compreensão de Bruno – as esperanças são dele, assim como a comida que porventura dividem. E Boyne fala “a partir de ser criança”, em comunhão com seu personagem, e nos dá a chave para ler além. Mas o subtítulo – “uma fábula” – não aparece na capa nem na página de rosto, roubando do leitor a possibilidade de confronto com a ironia: fábulas prometem finais felizes…

Augusto Pacheco Calil também traduz “em comunhão”, conseguindo achar palavras em português que buscam reproduzir os sons das palavras em alemão, surpreendendo-nos ao descobrirmos a que(m) se referem, ao mesmo tempo que reforçam a impossibilidade/incapacidade de Bruno de compreender o Fúria, Haja Vista e o mundo por eles criado.

O livro, que já recebeu uma versão para o cinema, lançada  em 2008, merece ser lido antes.

O menino do pijama listrado. John Boyne. Trad. de Augusto Pacheco Calil. Cia das letras, 2007.

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