Os livros de Lúcia

O encontro com o autor de setembro, na Barca dos Livros, é com a escritora e
ilustradora Lúcia Hiratsuka, que ministrará também o curso  Narrativa para Livros Ilustrados. Confira a programação no site da Barca dos Livros.

A  Biblioteca Barca dos Livros possui quase todas as publicações de Lúcia, que passam de uma dezena. Meu primeiro contato com elas foi através de Os Livros de Sayuri, 2007, editora Barco a Vapor, que serviu de mote para o título deste texto. Ao ler os outros livros, observo uma constante: a influência da cultura japonesa tanto em sua comunicação verbal quanto icônica. Ela é sansei, isto é, nascida no Brasil de pais nisseis, também nascidos no Brasil, e neta de imigrantes japoneses. Suas histórias nos mostram, ora explícita ora implicitamente, um aspecto da história do Brasil que só recentemente tem sido mais contado. Sim, porque os japoneses e seus descendentes também integram um contingente significativo da população brasileira e, embora tenham sido explorados no início da imigração e marginalizados durante a segunda guerra mundial, imprimiram e continuam a imprimir fortes traços na cultura, na arte, na ciência e na política.

Pois bem, em Os Livros de Sayuri, a narrativa em primeira pessoa, feita por uma menina nissei, fala da época em que os imigrantes, todos sitiantes pobres, foram proibidos de falar japonês, de ensinar sua língua aos filhos, e de manter qualquer tipo de livro escrito em japonês, sob pena de prisão. No Brasil aliado às forças que combatiam o Japão, a Alemanha e a Itália durante a segunda guerra mundial, as autoridades consideravam os imigrantes como inimigos a serem vigiados. Pelos olhos curiosos, sagazes e ingênuos de Sayuri, lemos que muitas famílias enterraram seus livros, revistas, fotografias e cartas na tentativa de preservá-los. A autora se serve de um episódio triste e sombrio para descrever os costumes nos sítios de japoneses, com tal singeleza e poesia que, volta e meia, voltei a ler uma passagem para de novo desfrutá-la. Quanto às imagens, ao vagar das ilustrações para o texto e vice versa, percebe-se a maestria na utilização do espaço em branco na página.  Ela recorreu a elementos familiares – objetos, personagens e paisagens – de sua infância na área rural para rechear o livro com desenhos realistas, precisos e delicados, a grafite, e construir assim cenários. Na capa, a sombra de uma menina desenhando no chão o ideograma para “mundo”  nos prepara para o tipo de texto e imagens que se seguirão. Ora o desenho lembra uma iluminura, circunscrito a um cantinho da página, ora percorre o alto de uma página dupla, ora transborda, produzindo aproximação ou distanciamento, conforme demanda a história. Um dos capítulos, intitulado “O sabor de cada coisa”, vem em uma página dupla, com o desenho de um pássaro em um galho com caquis na página par, enquanto na página ímpar se lê:

Sabor não é só para comida, minha mãe vive dizendo. Bronca tem gosto de caqui verde. Carinho tem gosto de caqui bem maduro. Raiva? Tem gosto de berinjela cozida com pasta de soja. O pai fala que é uma delícia, não concordo de jeito nenhum.

Mais à frente, temos o desenho de sementes do pinheiro, típicos do inverno, no meio da página ímpar, ao lado do texto, enquanto na página par destaco a passagem:

O tempo está em tantas coisas…Nos ovos que se abrem e deixam sair os pintinhos, na cor avermelhada dos caquis, no frio que vem, ás vezes com geada, deixando tudo esbranquiçado. Na época do frio mesmo, meus pais não podem criar os bichos da seda. Alguns dias muito muito gelados, bons para ficarmos grudados no fogão, comendo batata doce e amendoim torrado.

Há muito a dizer sobre os livros de Lúcia, por exemplo, a relevância daqueles que recontam antigas lendas japonesas, como Issum Boshi, o pequeno Samurai, 1998, em parceria com Lúcia Pimentel Góes, editora Callis; Urashima Taro, a história de um pescador, 2001, editora Global; Contos da Montanha, 2005, editora SM; e Histórias de Mukashi, contos populares do Japão, 2008, editora Elementar.


O melhor mesmo é lê-los todos, mas quero comentar brevemente mais alguns, não sem antes observar que, à medida que vamos nos familiarizando com a obra de Lúcia,  fica cada vez mais perceptível, em suas aquarelas, a influência do sumi-ê, arte tradicional japonesa originada no zen budismo. Ela mostra também versatilidade ao ilustrar livros de outros autores, como em Caminho das Asas, de Fabrício Conde, 2008, Roda & Cia Editora, que fala de bois e boiadeiros nas barrancas do rio São Francisco.

Os livros Antes da Chuva, 2010, editora Global, e  A Visita, 2011, DCL, são reveladores de uma trajetória no sentido de dizer cada vez mais com menos. O primeiro é um convite a escutar os sons e olhar as cores da natureza quando está para chover. O segundo é sobre surpresa, medo, alegria, silêncio e transformação; um menino e sua relação com um estranho visitante.

Em Antes da Chuva, as imagens já são auto suficientes e permitiriam ao leitor construir a história, ou uma história, mas é em A Visita que acontece a opção pela imagem como narrativa.  E a história começa na capa, segue pela orelha, continua e passa da última página, chegando até a quarta capa. E continua na cabeça de quem lê…

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