Carvoeirinhos

de Roger Mello/Editora Cia. das Letras

O narrador tão peculiar de Carvoeirinhos é um marimbondo.  Enquanto busca alimento para seu ovo, o marimbondo se distrai acompanhando dois meninos que trabalham numa carvoaria.  A narração e as reflexões deste narrador, que observa o dia a dia dos meninos trabalhadores, são desprovidas de qualquer julgamento a respeito do que acontece ali.  Página a página, o marimbondo descreve a rotina do menino e de seu companheiro, Albinho, enquanto estes trabalham, conversam, brincam e se escondem pela carvoaria.  É essa perspectiva inocente do marimbondo que provoca a inquietude do leitor.  Com graça e leveza, Roger Mello traça paralelos entre o inseto e o menino-protagonista e, mais uma vez, transforma denúncia em poesia. 

Cada página é um pedaço de um quebra-cabeças que o leitor vai juntando para ouvir essa denúncia: o diálogo entre os meninos a respeito da ilegalidade de seu trabalho, o carro da fiscalização que aparece inesperadamente, o acordo entre os fiscais e o responsável pela carvoaria.  A mensagem é clara sem ser, porém, explícita.  Cada página revela mais um pedaço do retrato das fábricas de carvão: o calor dos fornos de barro, meninos-trabalhadores que voam, um incêndio no cerrado, um ‘passeio’ por uma siderúrgica. 

O projeto gráfico de Carvoeirinhos é por si só uma provocação à leitura.  O cinza predominante da capa é rasgado por pinceladas de rosa e laranja vivos.  O cinza do carvão em contraste ao laranja do fogo dos fornos de barro que queimam a lenha que se transforma em carvão.  As ilustrações feitas com colagens são de uma delicadeza violenta.  O contraste entre a beleza das ilustrações e a crueza do tema do livro confirmam o talento de Roger Mello.  Carvoeirinhos certamente veio para incluir a “lista de livros que toda criança deve ler antes de virar adulto” e que todo adulto deve ler muitas vezes, sempre.

“A casa do menino não é uma só. […] É uma casa onde se põe lenha pra lenha pegar fogo e depois virar carvão.  A casa do menino não é dele, não foi ele quem fez.  É a casa do fogo.”

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Um comentário sobre “Carvoeirinhos

  1. Sil,
    Eu também amei esse livro!
    Concordo com você! O autor é extremamente inventivo tanto em matéria texto quanto em matéria de figura!
    bjs

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