As Lágrimas de Shiva

A história é contada na primeira pessoa, pelo personagem Javier, de quinze anos de idade, que gosta de ler ficção científica, e ambientada na época da guerra no Vietnã e da ditadura de Franco na Espanha.

Devido à convalescença do pai, que saíra do hospital depois de uma tuberculose, a mãe envia os filhos para passar as férias na casa de parentes, pois ainda havia risco de contágio. O filho mais velho vai para uma casa na mesma cidade, Madri, e Javier vai viver com sua tia materna na região litorânea de Santander.

Diferentemente da sua, a família dos tios de Javier é decadente, calorosa, excêntrica e politizada. O tio é engenheiro e vive das patentes de suas invenções.

A convivência com as quatro primas, e principalmente com Violeta, de mesma idade que ele, coincide com sua entrada para a vida adulta. Juntos, os dois acabam se envolvendo na aventura de desvendar o enigma das Lágrimas de Shiva e reconstroem a história de uma mulher e de seu amor proibido, de quem os adultos da família não querem falar. Paralelamente, desenrola-se um romance entre a filha mais velha dos Orégon e o filho da família inimiga, no tradicional estilo Romeu e Julieta.

O autor escreve de forma jovial sem perder o bom estilo literário. Autores jovens irão se identificar com os personagens. Para os adultos, trará sem dúvida boas lembranças das agruras e delícias da passagem da vida infantil para a adulta.

Abaixo, alguns trechos. Não esperem com eles obter um resumo da história, pois eles foram colhidos para vocês terem uma idéia das emoções que o texto suscita.

A casa era ainda mais antiga do que parecia logo que cheguei. O teto era muito alto, o piso, de madeira com tábuas largas, e em todo lado havia pinturas e diversos tipos de antiguidade.

_Essa casa foi construída no começo do século dezenove – me informou Margarida, enquanto descíamos pela escada – quando os Obrégon ainda eram parte da plutocracia local.

Até então eu não conhecia o significado da palavra plutocracia. Mais tarde consultei o dicionário e descobri que significa o poder dos mais ricos. Também descobri que Margarida era comunista, ou algo parecido.

 

Era mais ou menos meia noite. Eu acabara de apagar a luz e estava adormecendo quando escutei um barulho e sussurros que pareciam vir de fora do quarto. Intrigado, saí da cama, abri as cortinas e olhei pela janela. No começo não vi nada, só a chuva caindo suavemente sobre o jardim solitário, mas uns leves ruídos à esquerda me chamaram a atenção e, ao voltar a olhar, descobri que alguém havia saído pela janela do quarto de Margarida e agora descia para o jardim, utilizando o cano que coletava a água do telhado como uma escada improvisada.

 

O que de fato havia acontecido naquela tarde no segundo andar da Villa Candelária? Ouvi o som de passos e vi, ou achei que tinha visto, o voo de uma saia desaparecendo atrás da escada… O fantasma de uma mulher? Não fazia sentido, claro, os fantasmas não existem. Eu estava me deixando sugestionar pelo clima daquele velho casarão… Mas então porque eu tinha a sensação de que Violeta sabia, de algum modo, o que estava acontecendo?

 

Fiquei paralisado em frente à porta, alucinado, estupefato. O banheiro estava ocupado. Mas meu espanto não tinha a ver com o fato de que o banheiro estava ocupado, é claro, mas com a pessoa que o ocupava. A porta estava entreaberta e através da fresta pude ver Margarida tomando banho, completamente nua (isso é claro, já que ela estava no banho). O que senti naquele momento não foi exatamente uma impressão erótica, mas estética. Margarida estava muito linda sem roupa, com o cabelo despenteado e a água acariciando a sua pele. Parecia, não sei, uma ninfa, uma fada, uma estátua de mármore sob uma fonte… Além das revistas que meu irmão arranjava não sei como nem onde, era a primeira vez que eu via uma mulher nua.

 

Acho que foi nesse dia que eu fiz uma descoberta importante: Rosa desenhava, tia Adela e Margarida bordavam, Violeta escrevia e Açucena observava. Cada uma estava completamente concentrada em sua tarefa e mesmo sem conversar entre si, de algum modo estavam completamente unidas, como se para elas bastasse o silêncio para que se comunicassem, como se fossem um único organismo. Não pude deixar de sentir um pouco de inveja daquela harmonia e também um pouco de tristeza, pois entendi que jamais faria parte daquele universo íntimo, composto por cinco mulheres. Era impossível não por eu ser um intruso, mas pela minha condição de homem.

O livro foi traduzido do espanhol e, assim como os livros Bailarina Fantasma e A Espada Turca, comentados neste site, pertence ao gênero Fantástico, com toques de contemporaneidade e historicidade. É mais denso, mais adulto, embora possa ser lido e apreciado por jovens. Seu grande mérito é menos o estilo da narrativa do que a história bem contada; o conteúdo é priorizado, não a forma. A linguagem é correta e simples.

O autor é filho do renomado escritor espanhol José Mallorquí e faz jus à sua genealogia.

A história é muito bonita e contém os ingredientes que fisgam o leitor: suspense, aventura e desenlace feliz, incluindo o fantasma de uma bela mulher que pede ajuda para reabilitar sua memória, uma vez que em vida foi proscrita como ladra.

A tradução mantém a força e a qualidade do texto no geral, mas merecia uma nova revisão. Exemplos:

O termo francês “foyer”, que não possui uma boa tradução para o português; no início do texto é abrasileirado para “foaier” e depois várias vezes é utilizado com a grafia francesa.
Pg. 13 “Depois de deixar a mim e o meu irmão…” quando deveria ser: … a mim e ao meu irmão
Pg. 34 “Essa casa…” quando deveria, neste caso, ser:  “Esta casa…”
Pg. 39, o nome da mulher do rei Artur é mantido em espanhol, “Rainha Ginebra” e não foi traduzido para o português “Rainha Guinevere”.

E por aí vai.
Não são grandes falhas, mas sua freqüência incomoda o leitor mais atento. Mesmo assim, foi uma boa aquisição para nossos leitores da Biblioteca da Barca dos Livros.

Livro: As Lágrimas de Shiva
Autor: César Mallorquí
Tradutora: Socorro Acioli
Editora: Biruta

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2 comentários sobre “As Lágrimas de Shiva

  1. Oi, Nadir, adorei a tua resenha.
    Pra quem não tem idéia de um presente de Natal, este livro é perfeito.
    O texto que escolheste nos dá vontade de começar a ler na hora.
    Viva a nossa Biblioteca e sua preciosa equipe.
    Bjs/Regi

    1. Oi, Regi, que bom saber que a resenha foi útil. É este o objetivo dos membros do NEP: dar vontade de ler. Bjs

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