A Bailarina Fantasma

A Bailarina Fantasma

Ao ler o livro A Bailarina Fantasma, lembrei-me do primeiro romance de Victor Hugo: O Corcunda de Notre Dame. E por que? Bem, existem aproximações e distanciamentos entre os dois livros. Ambos contêm histórias poéticas de amor, de diferentes tipos de amor, e envolvem edifícios de grande valor histórico. Uma é escrita em 1831, em pleno romantismo, e ambientada na Paris da Idade Média, enquanto a outra é contemporânea e ambientada na cidade de Fortaleza, no início do século XX.

A história com o disforme Quasimodo e a cigana Esmeralda, ambos enjeitados pela sociedade, até hoje encanta e emociona públicos de todas as idades. Além disso, chamou a atenção para o estado de abandono em que se encontrava a catedral de Nossa Senhora de Paris. A igreja havia sofrido destruição de túmulos e vitrais no século XVII, em conseqüência de “modernizações”, e roubo de muitos de seus tesouros no decorrer da Revolução Francesa. Com o florescer da época romântica e o crescente interesse filosófico pelo passado, iniciou-se um grande processo de restauro de monumentos, particularmente da catedral.

Na história da bailarina fantasma, original pela trama e pelo contexto, a autora trabalha com base na realidade histórica, fisga o leitor desde o início com um mistério, introduz o fantástico, liga os personagens com amor filial, amor cortês, amizade, e constrói assim uma trama que envolve ainda duas jovens adolescentes do século XXI, curiosas e destemidas.  Antevejo grande sucesso desse livro entre nossos jovens leitores.

A trama envolve o processo de restauro do teatro José de Alencar e o projeto gráfico do livro lembra a todo o momento a estrutura toda em ferro do edifício, construído em 1908. As cores na capa são joviais; negro e branco sobre fundo magenta. O texto vem dividido em três atos e entre cada ato e cada capítulo o leitor folheia páginas ilustradas nas mesmas cores e estilo da capa, o que lembra o abrir e fechar de cortinas e trocas de cenários.

Tudo nesse livro está em concerto. Para teatro antigo, fantasma leve, lindo e triste, e mistério, um mistério que não se revela na narrativa que dá pistas e só desvela os segredos no final. Para cenário de teatro, texto em prosa, poético e com jeito de peça de teatro.

Intrigando e divertindo, o livro em muitos momentos focaliza a morte de um modo natural, o que com certeza ajudará jovens leitores a lidar com as perdas de entes queridos. Além disso, motivará os visitantes e moradores de Fortaleza, Ceará, a ir conhecer o Theatro José de Alencar.

Colhi para vocês alguns fragmentos do livro para dar “um gostinho na boca”:

Até hoje a empresa Macfarlane & Co, que forneceu o ferro para a estrutura da casa de espetáculos, indica o Theatro José de Alencar como uma de suas obras mais bonitas, dentre tantas espalhadas pelo mundo.

Parece que os fantasmas gostam de teatros antigos. Com esse não é diferente.

Sempre que via uma flor começando a murchar, ou uma borboleta com a asa machucada, ou uma formiguinha carregada pelas águas da chuva, explicava-lhes baixinho que todos os seres vivos um dia ou outro iam para outro lugar… No fundo as pequenas mortes da natureza eram para Anabela uma esperança de fazer contato com a mãe, especialmente quando ela via um miosótis – a flor preferida de Melinda – começando a amarelar suas pétalas, dando sinal de que era hora de partir.

Até que se aproximou de mim uma jovem linda, linda demais. Ela estava vestida com uma das roupas do teatro, um tutu azul-claro, e descalça. Os cabelos eram bem longos e cacheados. Os olhos dela eram esverdeados, quase transparentes. Era tão fria e leve. No meio da dança perguntei: _Você está aqui há muito tempo?  Eu fico todo arrepiado só de lembrar. A moça olhou bem nos meus olhos e respondeu: _Há mais de setenta anos.

Eu queria fugir, mas aos poucos era obrigada a ficar cada vez mais perto do que me assustava. Precisava voltar todos os dias para o mesmo local e ficar cara a cara com o medo… No dia seguinte àquela noite assustadora, quando ouvi a voz do fantasma me chamando, tive que ir ao teatro à tarde, como vinha ocorrendo desde que começou o trabalho do meu pai na restauração. Por sorte a Luciana foi comigo e decidimos não chegar perto do palco.

Livro: A Bailarina Fantasma
Autor: Socorro Acioli
Editora: Biruta

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