Sempreviva, a Leitura

por Claudia Marchese Winfield, UFSC

Marta Morais da Costa é professora da Universidade Federal do Paraná, onde atua nas áreas de leitura e literatura. Além de docente, é autora de livros sobre o tema da leitura, literatura, teatro e metodologia de ensino. Em “Sempreviva, a leitura”, publicada pela Editora Aymará em 2009, a autora aborda o tema da leitura como condição essencial para o desenvolvimento do ser humano, tanto no âmbito individual como social.  Sendo assim, percebe-se que a publicação é voltada para a formação de leitores, pois a autora se baseia em reflexões teóricas para discutir o tema da leitura. Além disso, a autora oferece sugestões para práticas pedagógicas visando à formação do leitor como sujeito pensante, capaz de interagir com os textos com os quais se depara, e de construir significados a partir dessa interação.

O livro é composto de dez capítulos, além da seção de referências. No primeiro capítulo, intitulado a “Apresentação”, a autora faz um convite ao leitor em geral, e chama a atenção para a necessidade de maior aprofundamento da discussão sobre leitura e a educação no Brasil alertando que “Na farmácia das soluções simplistas, a educação virou remédio universal” (p. 9).  Em resposta ao seu próprio alerta, a autora reconhece a complexidade do tema, e propõe este livro. Já no segundo capítulo, “A leitura e a bússola”, a autora reforça seu o convite à leitura por meio de uma metáfora – em que a leitura é o oceano e o livro a bússola.

No terceiro capítulo, “A leitura em experiências práticas”, a autora discute as mudanças nas antigas concepções de leitura que se limitavam ao aprendizado mecânico da leitura, sendo que no Brasil, os estudos em leitura ganham força a partir da segunda metade do século XX, passando pelo meio acadêmico e ganhando espaço na sociedade. A autora aponta para a distinção entre alfabetização e letramento, estando o segundo relacionado ao uso da alfabetização na prática social, o que permite que as pessoas participem de práticas sociais mediadas pela comunicação escrita. Entra aqui a teorização sobre o leitor, tratando-se então da leitura como prática que envolve a interpretação de textos.

O quarto capítulo é intitulado “Leitura, da previsão à visão ampliada”, e nele estende-se o entendimento de leitura como um ato que engloba cinco processos, isto é, neurofisiológico, cognitivo, afetivo, argumentativo e simbólico, de acordo com Gilles Thérien (1990).   Neste capítulo, a discussão enfatiza a interação do leitor com o texto no processo de construção de significados. Já no capítulo seguinte, “O leitor em ação”, o foco está no leitor ativo, construtor de significados. Reflete-se aqui sobre os tipos de leitura, sobre as fases da leitura com recomendações importantes de tipos de materiais adequados a cada fase do leitor infantil e adolescente, e sobre as fases de desenvolvimento do leitor: o pré-leitor, o leitor iniciante, o leitor em processo, o leitor fluente e o leitor crítico. Retoma-se a situação do alfabetismo no Brasil, que nas palavras da autora, permanece “precário”, por isso a leitura deve ser “uma bandeira de desenvolvimento pessoal, social e do país” (p.71).

No sexto capítulo, “Multiplicação de leituras” a autora introduz a distinção entre alfabetização e letramento na concepção de leitura, o que tem modificado o ensino de leitura no Brasil. O conceito de letramento como o uso da alfabetização em práticas sociais amplia também o conceito de texto e de compreensão leitora, possibilitando assim, as múltiplas linguagens, os gêneros textuais, variedade de materiais e suportes. Além do aspecto social, Marta Morais da Costa vê a leitura também como um processo de abstração; por isso podemos conceber a multiplicação de leituras, já que esta envolve múltiplos leitores.

O sétimo capítulo é intitulado “Na escola e na vida”, e nele a professora reflete sobre o ensino, a construção do saber, a questão da fragmentação dos saberes e o novo paradigma oferecido pela transdisciplinaridade, de forma que o leitor; que é sujeito pensante, consegue relacionar a leitura com a ciência, com a cultura e com a educação. Contudo, a autora lembra que a escola sofreu “conseqüências perversas na formação de leitores na escola” (p. 95) em que o desenvolvimento da leitura está separado do desenvolvimento de outros saberes, e caracteriza-se como um “exercício utilitário de decifrar informações” (p.96). Reconhecido o problema, a autora defende a pedagogia de projetos colaborativos por um lado, e por outro, acrescenta que há necessidade das pessoas envolvidas na formação do sujeito-leitor refletirem sobre a singularização do leitor, pois, além de um viés social, a leitura tem um viés singular, de ordem interior.

Com a visão transdisciplinar da leitura, ampliaram-se as oportunidades de desenvolvimento desta, de forma a ultrapassar os limites da escola, conforme descrito no oitavo capítulo “Os agentes da leitura”. Agora a leitura pode ser intermediada não somente pelo professor, mas por um agente da leitura, em espaços como bibliotecas, ONGs, igrejas, espaços públicos ou privados, e também a própria escola. Neste capítulo, Marta Morais da Costa sugere encaminhamentos de mudança sobre a transdisciplinaridade, a atuação do professor-leitor, o resgate de acervos pessoais e a metodologia.

No nono capítulo, “A conquista de leitores”, o foco é em práticas de leitura na sala de aula, onde a autora faz diversas propostas de práticas para quatro momentos fundamentais na leitura: a preparação, as práticas mediais, as práticas derivadas, e as práticas processuais. No último capítulo, “Fim do ensaio, começo das leituras”, a autora oferece um apanhado geral sobre os temas discutidos, destacando o caráter processual da leitura.

Em geral, percebe-se o cuidado com a apresentação do material, incluindo a capa e a utilização das imagens, o que torna o material esteticamente atraente para o leitor, além disso, a organização do texto e o desenvolvimento do tema são bastante lógicos. Sendo assim “Sempreviva, a leitura” é uma excelente contribuição para todos interessados no tema, em particular para os professores e agentes de leitura, porque ao fim da discussão teórica em cada capítulo há sugestões de práticas pedagógicas muito criativas e bem-estruturadas, o que faz do livro uma excelente fonte para a reflexão e prática pedagógicas.

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