Falando sobre Evolução

Um livro de capa dura, com menos de cem páginas, de um tamanho gostoso de pegar, 22 por 29 centímetros, título em vermelho sobre fundo azul celeste.

Uma linha de horizonte e abaixo um deserto representado em cor de areia. Uma grande ampulheta com animais pré-históricos entrando na parte superior e animais contemporâneos saindo da parte inferior. Muitos animais, muitas cores, um retratinho do autor Robert Winston, bonachão, no canto superior direito.

Dá vontade de abrir e, ao abrir, vontade de ler, pois todas as páginas abundam em ilustrações atraentes entremeando as caixas de texto.

O livro trata da teoria da evolução, apontando sua origem na obra “A Origem das Espécies” de Charles Darwin e seus desenvolvimentos até o momento atual.

Vem bem a tempo neste ano de 2009, em que se comemora 150 anos da publicação do livro de Darwin.

Winston conta brevemente algumas das antigas explicações sobre a criação do mundo, como a do Gênesis, a dos antigos gregos, a dos aborígenes e a dos hindus, que sobrevivem como histórias, como relatos metafóricos. A seguir, mostra o surgimento, no século XVIII, do debate em torno dessa questão e os desenvolvimentos da ciência, com seu alto valor explicativo.

Explicar conceitos como os de adaptação e seleção é um desafio. No início (página 16) o conceito de seleção natural é explicado por meio de três fatores: variação, competição e herança. Ali deveria ser dito, por ser essencial na compreensão do processo, que além de sobreviver, é importante que o indivíduo se reproduza, para passar às gerações seguintes as variações nele presentes. Esta pequena, mas importante, omissão é reparada na página 32, com o exemplo do pavão, em que os machos com caudas mais atraentes atraem mais fêmeas e deixam maior número de descendentes, apresentando o que se chama maior valor adaptativo. Como consequência, as caudas mais elaboradas se tornam mais frequentes ao longo do tempo. Devemos sempre ter cuidado ao falar sobre esses exemplos, pois determinadas expressões remetem à idéia de modificação dirigida pelo meio ambiente. A idéia de acaso é crucial na teoria da evolução, segundo a qual as variações não surgem em resposta ao meio ambiente. Isto tanto para Darwin como para os evolucionistas de hoje.

Mais adiante, na página 52, o acaso é mencionado, mas como uma idéia que surgiu depois de Darwin, com o conceito de Deriva Genética.

A ciência é complexa. Quando tentamos simplificar, na tentativa de torná-la acessível a leigos, é extremamente difícil evitar distorções e elas não são raras no livro de Winston.

Ocorre uma ênfase excessiva na figura de Darwin, em detrimento das idéias de outros pesquisadores que contribuíram de forma decisiva para a teoria científica atual sobre a evolução dos organismos vivos. A abordagem é a do tipo que chamamos história dos vencedores: mitifica aqueles cujas idéias prevaleceram e diminui aqueles cujas idéias foram rejeitadas, embora tenham sido importantes no momento em que foram propostas.  Lamarck, por exemplo, foi um grande pesquisador. Cunhou o termo Biologia para designar a ciência que estuda os seres vivos e foi importante na fundação de uma área de pesquisa desvalorizada na época: os estudos da paleontologia dos invertebrados. Partia do princípio de que os seres vivos evoluem e se transformam, idéia muito avançada para o início do século XIX. Influenciou muito as idéias de Darwin, que elogia as pesquisas de Lamarck na terceira edição do livro Origem das Espécies.

Aliás, o livro que Darwin revisou a cada uma das inúmeras edições, procurando responder às críticas de seus oponentes, com uma força de argumentação ressaltada atualmente por filósofos da ciência, é mencionado no livro de Winston como um “resumo, pois o livro mais detalhado ele nunca fez”. Não é à toa que se diz que o Origem das Espécies é um dos livros mais citados e menos lido…

As teorias científicas surgem da interação entre pesquisador, objeto de estudo e o estado em que se encontra o conhecimento no momento. Isto quer dizer que as teorias científicas são produzidas coletivamente, no contexto social, histórico e político. O livro reforça, em alguns momentos, o estereótipo do cientista como um gênio iluminado que, sozinho, “descobre verdades”. Entretanto, ao ler o livro Origem das Espécies, observa-se que Darwin faz um grande número de citações, referenciando-se em outros autores, exatamente como fazem os pesquisadores hoje.

Alfred Wallace é retratado como alguém que simplesmente teve um momento de inspiração enquanto se recuperava de uma febre e chega a uma conclusão parecida com a de Darwin. Entretanto, ele é considerado por historiadores da ciência como um grande pesquisador, que deixou um inestimável legado em termos de dados coletados e de interpretações sólidas, resultado de longos anos de viagens e estudos.

Além das distorções, outro problema enfrentado pelos divulgadores da ciência é o hermetismo. Neste sentido, o autor foi feliz em grande parte do livro. Em alguns momentos, entretanto, como o da página 32, o leitor enfrenta dificuldades: os conceitos de fertilização cruzada e autofertilização só ficam claros, talvez, para o leitor que faz o experimento proposto na página seguinte.

Explicar a evolução do olho nos organismos vivos foi uma boa escolha, pois é um bom exemplo de como estruturas complexas podem surgir pelo processo de seleção natural. Entretanto, dá margem a interpretações finalistas, isto é, de que as mutações têm um propósito. É claro que as pessoas podem optar por acreditar que existe um desígnio, divino ou de outra ordem, mas não existe evidência científica para isto.

Embora se defenda que em um trabalho de divulgação científica é mais importante motivar o leitor a se interessar pela ciência do que a correção de conceitos, algumas imprecisões incomodam. Um exemplo está na descrição dos experimentos de Mendel. Ao cruzar ervilhas de vagem amarela com ervilhas de vagem verde, o pesquisador obteve ervilhas de vagem verde. Ao cruzar essas ervilhas verdes entre si obteve ervilhas verdes e ervilhas amarelas, na proporção de 3 para 1. A explicação no livro diz: “a maneira como as duas cópias [referindo-se a cópia de genes] “se misturavam” determinava a cor da vagem”. Ora, foi justamente o mendelismo que derrubou definitivamente a idéia de herança por mistura e instalou definitivamente a teoria de herança descontínua. Os genes interagem, entre si e com o meio, mas não se misturam.

Felizmente, na página seguinte (42), uma conversa fictícia entre Darwin e Mendel esclarece corretamente os conceitos mendelianos. Também as explicações seguintes sobre genética ficam a desejar para um livro que se denomina educativo. A relação entre genes, cromossomos e genoma, uma dificuldade para grande parte dos estudantes, não é explicitada, e o mesmo acontece para os conceitos de DNA e evolução. Ainda, a expressão “os humanos têm o mesmo número de genomas de um rato”, que pode ter resultado de falha na revisão da tradução, é um equívoco sério. Cada organismo vivo possui um genoma, que é o conjunto dos genes contidos nos cromossomos. O que ocorre é que, quando o genoma humano é comparado com o do rato, verifica-se homologia de estrutura e função quanto a muitos genes.  Outros errinhos de grafia revelam falhas na tradução e revisão do texto.

Apesar do equívoco na explicação, o livro tem a qualidade de chamar a atenção para as semelhanças entre todos os organismos vivos, o que contribui para o entendimento de uma origem comum e também para o respeito a todas as formas de vida.

Outros pontos altos neste sentido estão: na página 50, quando é dito que “todos os seres vivos são mutantes”; nas páginas 52, 60 e 61, que enfatizam a importância biológica da variabilidade, e ainda na página 71, onde a questão da queda de um asteróide como responsável pela extinção dos dinossauros é colocada como uma teoria não consensual na comunidade científica, e não como um fato incontestável.

Ainda assim, alguns outros erros conceituais devem ser apontados, como o de considerar a cor dos olhos e a cor da pele (página 47) como características determinadas por um único par de genes, quando na realidade são de herança complexa, que envolve muitos genes.

Apesar das críticas que inevitavelmente precisam ser feitas, o livro tem grandes qualidades. Ao mostrar que Darwin era também um homem de laboratório, descrevendo alguns de seus experimentos, sugere ao leitor algumas atividades, como a de fabricar gavetas de organização de espécimes, alimentando a veia de colecionador existente nas crianças e jovens. Também apresenta uma boa abordagem de questões éticas, pois apresenta vários lados das questões controversas, como a da clonagem em mamíferos por transferência nuclear e a da transgenia, em animais, vegetais e outras espécies.

O projeto gráfico do livro é muito bom e a pesquisa de imagens é excelente.

Livro: A Revolução da Evolução – de Darwin ao DNA
Autoria: Robert Winston
Tradução: Vanessa Rodrigues
Editora: Caramelo Livros Educativos, 2009

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