Eu fico à espera de Davide Cali e Serge Bloch!

Elizabeth Cardoso Fernandes

Quando comecei a trabalhar na Barca,em 2007, como estagiária, li Fico à Espera… e fiquei apaixonada pelo livro. Agora, quando tive em minhas mãos O Inimigo, e percebi que ninguém tinha escrito sobre este igualmente apaixonante livro, meus dedos coçaram. Como foram escritos e ilustrados pelos mesmos artistas, aproveito para apresentar os dois.

Davide Cali é um escritor italiano, nascido na Suíça; Serge Bloch, um ilustrador francês. Juntos, publicaram O Inimigo (Cosac Naify, 2008) e Fico à Espera… (Cosac Naify, 2007). Em uma parceria que usa poucas e simples palavras e traços, esses artistas passam muitas e fortes mensagens, sensíveis e importantes.

Entendamos por “início” a orelha da capa do livro, o mesmo do “fim”. Então, aqui fica a dica: O Inimigo é um livro que deve ser lido do início ao fim, afinal, imagens também são legíveis. Com uma linguagem bastante acessível e, ainda assim, tocante, Davide nos transmite um pouco do frio cortante que um desolado soldado passa em uma batalha. Guerra é um assunto muito complexo, principalmente quando envolve crianças. Os pequenos, puros de coração, não veem sentido na guerra, não entendem o medo que os circunda, a instabilidade, a fome e a ausência dos pais. Para os que conhecem a inocência e o amor, a guerra não tem sentido. Mas, neste livro, a guerra faz sentido. Pelo menos para estes soldados.

Eles são dois. Um de cada lado da trincheira. Inimigos. O bom soldado passa fome, frio, sente saudade da família, e lamenta não poder sair dali porque o outro, o mal na Terra, pode matá-lo. O inimigo é mau. Mata crianças inocentes, não tem amor nem piedade no coração. Não tem família. Ele leu tudo sobre seu inimigo no manual. Mas, em certo momento, presenteado pela solidão, a saudade e o desespero tomam o lugar do medo e da insegurança. Assim, quando um, o bom soldado, percebe que o outro soldado é um ser humano como ele, que ama e sente saudade e, sim, tem uma família, ele entende que a guerra deve acabar. Ele resgata a inocência, entende que foi enganado por seus superiores, que luta e mata e morre um pouco a cada dia, por causa de uma guerra que não é dele, uma guerra que, como uma criança, ele não compreende. Uma guerra entre seres humanos que têm família, frio, fome, solidão. Coração.

Acompanhando este enredo, estão as ilustrações ternas e pueris de Serge, que nos mostra o quanto o céu pode ser ainda maior, quando as estrelas são a única companhia que uma pessoa pode ter. O campo de batalha é um lugar frio, solitário e que nos faz refletir – ou enlouquecer.

Sendo um livro onde texto e ilustração se complementam, Fico à espera… também nos brinda com um tema delicado: a vida. Flertando com a metáfora de que a vida é um fio, Serge usa um pedaço de lã vermelha ao longo do livro, às vezes curto, às vezes longo. De uma sutileza imensurável, o livro nos prende aos detalhes do pouco texto e das ilustrações delicadas, mas nos deixa devanear nos espaços em branco. O “carpe diem” entra na vida das crianças, através deste livro. Da infância ao leito de morte, passando pela adolescência e pelo casamento, traz perspectivas do que os espera em alguns anos, e, quem sabe, dá a eles – como dá a nós, adultos – vontade de passar, novamente, por aquilo que já vivemos. Como diriam meus pais, quando leram o livro: “Nossa, é assim, mesmo!”

E é por isso que eu fico à espera de mais livros dessa dupla mais do que dinâmica. Para conferir outros deliciosos trabalhos dos artistas: www.sergebloch.com e www.davidecali.com

Ou leia nossa entrevista com o escritor Davide Cali.

Barca: Davide, você escreve a dura realidade para crianças de uma maneira muito doce, preparando-as para a vida* e fazendo com que muitas encontrem a sua própria realidade social dentro do livro. Isso é intencional, ou simplesmente acontece? De onde você tira suas idéias? Passeando pelas ruas ou você realmente estuda sobre o assunto para retratá-lo tão especificamente?

Davide: Quando comecei a escrever para crianças, eu fiz isso pensando apenas que eu poderia dizer a eles qualquer coisa que eu quisesse. Não existe nada muito difícil para eles.

Meus primeiros livros eram engraçados, mas, em cada um deles havia, ao mesmo tempo um assunto “difícil”. Em Um papai sob medida, a garotinha protagonista da história não tem pai. Em Je veux une maman robot, uma criança cuja mãe o deixa sozinho em casa para ir trabalhar, decide construir uma nova mãe para ele, uma mãe – robô.

Fico à espera foi o primeiro livro diferente dos outros que eu fiz. Mais sério, mais filosófico. O livro veio sozinho. Eu estava no correio porque eu queria enviar uma carta. Teria que esperar muito, então eu comecei a pensar em todas as vezes que temos que esperar por algo durante a vida. Em casa, eu escrevi apenas uma simples lista de coisas. Então eu entendi que isso era um livro e que eu queria falar algo sobre o sentido da vida. Eu precisava ter feito isso naquele período, mas eu só tive a correta percepção disso quando o livro estava terminado.

Quando eu escrevi O Inimigo, eu apenas queria dizer algo sobre a Guerra e a manipulação da mídia, que nos dá, todos os dias, um inimigo contra quem lutarmos. É um livro sério e eu queria fazer isso desde o princípio.

Sobre de onde vêm minhas outras histórias: eu ainda não entendi isso exatamente. Antes eu estava acostumado a procurar pelas minhas histórias, mas, agora, as histórias procuram por mim. Histórias vêm a mim, frequentemente, quando eu viajo, porque quando estou em casa, tenho muito trabalho para fazer, então, minha mente sempre tem muitas coisas em que pensar. Quando estou em um avião, não tenho trabalho pra fazer, ninguém pode me achar por e-mail ou telefone, eu não tenho que pensar em nada. É neste momento que as histórias me acham. É verdade que, em todas as minhas histórias, temos algo real, algo sobre a vida, nosso mundo, mas, a forma de contá-las, a “engine” da história veio por ela própria. Aí começa outra parte do trabalho: fazer a história para o editor, no formato correto, o número de páginas para um álbum, etc. Essa é a parte mais difícil do trabalho. Às vezes eu escrevo uma história em 20 minutos e, então, leva 3 anos para que ela finalmente esteja pronta para ser impressa em um livro. É também por esse motivo que, geralmente, eu trabalho em várias histórias, por volta de 10, ao mesmo tempo.

Barca: Escrever para crianças é, reconhecidamente, uma tarefa difícil. Você decidiu escrever para crianças, ou descobriu-se um bom escritor para os pequenos leitores?

Davide: Isso simplesmente aconteceu. Num primeiro momento eu era cartunista e eu queria fazer só isso pelo resto da minha vida. Eu conhecia razoavelmente bem os livros de crianças porque durante meu trabalho voluntário (eu o fiz, ao invés de servir no exército) eu trabalhei em uma biblioteca especializada em livros infantis, mas eu nunca pensei em, eu também, fazer livros para crianças.

Então, eu visitei uma exposição com uma seleção dos melhores livros franceses para crianças e eu entendi que eu já era um autor para crianças. Muitas histórias que estavam em minha mente e que não eram boas para histórias em quadrinhos, mas que já estavam escritas e ilustradas, eram livros para crianças.

Barca: Pelo que vi em seu site, você é cartunista, estou enganada? Mas, não encontrei nenhum livro seu escrito e ilustrado por você. Por que você não ilustra seus próprios livros?

Davide: Eu comecei a trabalhar como cartunista em 1994. Eu tinha 22 anos e Linus, a mais importante HQ mensal publicada na Itália (¹nota do autor), achou meu trabalho interessante. Eu trabalhei para essa revista, escrevendo e desenhando, fazendo HQs, tirinhas, ilustrações e capas por 14 anos, até o verão europeu de 2008. Enquanto isso, eu comecei a publicar meus livros. O primeiro apareceu em 2000. Eu ilustrei meus primeiros quatro livros. Então um editor italiano perguntou se eu poderia escrever uma história para ele. Era um projeto para o qual ele já tinha um ilustrador. No primeiro momento, eu não sabia se aceitava, depois, eu decidi tentar. Alguns anos depois, eu comecei a ser tão procurado como escritor que eu tive que deixar as ilustrações para terceiros. Eu não tinha tempo suficiente para fazer tudo.

Enfim, eu ilustrei um livrinho em 2008, publicado na Argentina por Pequeño Editor. Ele é intitulado Spaghetti, e é um livrinho bem estranho, ilustrado em tinta preta e espaguete italiano real. Foi bem legal fazê-lo.

(¹nota do autor) E o último sobrevivente dos anos 80. Durante os anos 80, havia muitas revistas de quadrinhos, mas a crise do início dos anos 90 e uma nova geração de leitores de quadrinhos (que preferiam mangás japoneses e  quadrinhos de super-heróis americanos), levaram ao encerramento das revistas.

 

Barca: Como você escolhe aquelas pessoas que ilustrarão seus livros? São amigos, pessoas que compartilham de suas idéias, ou é simplesmente a editora quem indica? Você participa do processo de criação dos outros artistas, ou deixa-os livres para criar as imagens do que você escreveu?

Davide: Antes eu tentava realizar meus projetos com um ilustrador, mas, isso não é fácil de se fazer. Frequentemente os editores gostavam só do texto ou só das ilustrações, mas, não das duas coisas. Isso funcionou bem apenas com Anna Laura Cantone. Os outros ilustradores com quem trabalhei foram sugeridos pelo editores, mas eu sempre posso aceitar ou não. De qualquer forma, eu dou parte do trabalho: eu dou as histórias com um storyboard ilustrado completo. Ilustradores podem escolher segui-lo ou não, mas, geralmente, eles seguem.

Para Fico à espera… eu dei um storyboard pro Serge, mas, então, ele fez algo completamente diferente. Ele é ótimo. Ele seguiu o storyboard que eu fiz para O Inimigo, mas para o nosso terceiro livro juntos, J’aime t’embrasser, eu apenas escrevi um texto.

Com outros ilustradores, eu participei do trabalho deles, e eles fizeram o mesmo com o meu, pedindo-me para mudar pequenas coisas no texto ou me dando sugestões quanto a ele.

A colaboração com alguns ilustradores funcionou tão bem que o editor agora me pede novos livros especialmente para eles. Isso aconteceu na Itália, com Evelyn Daviddi e na França com Anna Laura Cantone, Eric Heliot e Serge Bloch.

 

Barca: Davide, como você vê a presença da leitura na vida das crianças e jovens em seu país [Davide reside, atualmente, na Itália]?

Davide: Muito mal. A Itália é uma país cheio de cultura, mas uma cultura do passado. É verdade que a Itália produziu, e produz hoje em dia, também, muitos gênios da arte ou da literatura ou do cinema, mas, pessoas comuns não  têm muito interesse em cultura e livros em geral. Então, eu prefiro trabalhar na França. Eu também estou tentando publicar diretamente nos EUA e no Japão.

Barca: Muito obrigada pela sua atenção e carinho. Alguma palavra aos leitores da Barca dos Livros e de todo o Brasil?

Davide: Obrigada a você. Estou feliz em ser publicado no Brasil. Meus livros, em 2008, chegaram à Austrália também, então, agora eu sou traduzido em todos os cinco continentes. Muitos países e muitas pessoas diferentes. Espero que um dia eu possa visitar todos, o Brasil também.

*de Davide Cali, temos na Barca, também “Um Papai sob medida”, que fala de uma menina que não conhece o pai, e que quer escolher um que atenda às suas necessidades.

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