SANDOKAN E TREMAL-NAIK: DOIS HERÓIS À MODA ANTIGA

As obras e o nome do escritor italiano Emilio Salgari (1862-1911) provavelmente ainda não são muito conhecidos da maioria do público infanto-juvenil brasileiro. Ou melhor, agora podemos dizer que eram desconhecidos até muito pouco tempo atrás. Louvável, pois, a iniciativa da Iluminuras de propor ao leitor brasileiro o volume dos Tigres de Mompracem, com as ilustrações da edição de 1900, em preto e branco, de Carlo Linzaghi e Os Mistérios da Selva Negra, com a reprodução no final do texto da capa de Dalmonte (1895). É um resgate que faz renascer as aventuras densas de suspense e heroísmo que fascinaram gerações de jovens italianos e também nomes como Pablo Neruda e José Luis Borges, segundo afirmam as autoras da apresentação Regina Rocha e Maiza Rocha.
O palco das aventuras narradas no primeiro livro,
Os Tigres de Mompracem, é a região do Bornéu e suas selvas, desconhecidas da maioria de nós leitores até mesmo no tempo presente e, segundo alguns críticos e biógrafos, tal teriam sido até mesmo para o autor Salgari, que nunca teria singrado mares tão distantes ou estado nos lugares que descreve. Assim, o nome de nosso autor, acompanhando os ‘sempresentes’ best-sellers da época, poderia, a meu ver, ser lembrado ao lado de Dumas, pai, do Conde de Monte Cristo e de Júlio Verne das Vinte mil léguas submarinas, embora os escritos e os escritores italianos não tenham tido ao longo do século XIX a visibilidade literária da qual a França desfrutou, ou, com mais propriedade, ao lado de Kipling e Cooper por eleger heróis não-europeus em suas histórias. De lembranças vividas (alguns dizem que viajou pelos mares), ou de sua pura fantasia, Salgari construiu, assim, suas tramas, com uma imaginação fervorosa, aliada a um estilo de narrativa que acompanha os rompantes de seus personagens, dois dos quais queremos mencionar: Sandokan e Tremal-Naik.
Comecemos por Sandokan, o Tigre da Malásia, que se apresenta como o chefe dos piratas, os seus
tigrotti, e está empenhado no saque aos barcos carregados de mercadorias, prática que tem por finalidade prover mantimentos e tesouros para seu grupo. O Tigre e seus filhotes vivem unidos numa comunidade composta de várias etnias na ilha de Mompracem (que incrivelmente constava nos mapas até o século XVIII), nas proximidades de Bornéu. Movido pelo ódio contra os ocidentais – mais especificamente os ingleses diretamente responsáveis pela morte de sua família e pela perda de seu reino e de suas prerrogativas de príncipe (me faz lembrar o capitão Nemo de Verne), nosso herói está inserido naquele contexto histórico que viu a Malásia, como a Índia, invadida e reduzida a colônia do reino da Inglaterra.
Contra as pistolas e as metralhadoras primitivas de seus inimigos muito bem armados – dentre eles os caçadores de piratas – Sandokan maneja suas infalíveis adagas, o fuzil ou a carabina, valendo-se principalmente de sua coragem e de seu conhecimento do mar e da selva. Mas tudo vai mudar quando conhece a “pérola de Labuan”,a motivação e a loucura do Tigre: a bela Marianna dos cabelos de ouro, por quem ele sofrerá desventuras e viverá aventuras de tirar o fôlego. No contexto das perseguições e lutas, seus homens – seus
tigrotti – não o abandonam jamais, sempre prontos antes a morrer por ele, Sandokan, do que pela própria causa dos piratas. Também seu mais que fiel amigo e companheiro, personificado no português Yanez, está sempre a seu lado, embora não possa compreender como uma mulher passe a significar tanto para Sandokan a ponto de transtorná-lo completamente e levá-lo a arriscar sua vida e a de muitos outros para fazer de Marianna sua rainha.
Talvez alguns leitores sintam um pouco de exagero nas descrições dos momentos de arrebatamento heróico e apaixonado desse herói imerso no ambiente exótico dessa ilha imaginária e inacessível, mas não podemos nos esquecer de que eram tempos heróicos aqueles, tempos em que a própria Europa buscava caminhos novos e a Itália somente poucos anos antes havia se tornado uma nação; tempos em que na Índia, não eram incomuns episódios em que populações inteiras tentavam insurgir contra o dominador imperialista, mesmo às custas de banhos de sangue. E certamente poderia caber aqui também uma análise que traria à baila as profundas e perspicazes argumentações de Edward Said, tão bem expressas em suas considerações em torno do conceito de orientalismo, sobre como o imaginário ocidental construiu, e praticamente ‘inventou’, o Oriente.
Mas, nesse nosso percurso, voltando ao território da fruição, claramente o nosso pacto de leitores se romperá se não acompanharmos nosso herói, se não acreditarmos – pelo menos um pouquinho – naquele sentimento que o prende a seus homens e que o leva a superar todo e qualquer obstáculo para ter Marianna em seus braços e com ela compartilhar o trono de Mompracem.
Outra presença ao mesmo tempo real e selvagem é a do tigre. Esse animal, ora aliado de nosso herói, ora perigoso predador em seu habitat invadido pelo homem traz às páginas de Salgari todo o exotismo da fauna daquelas terras. Embora hoje nós tenhamos a consciência de que a morte de um tigre representa uma chance a menos para a manutenção de uma espécie ameaçada, devemos lembrar que para aqueles que viviam naquele contexto, a defesa contra os animais selvagens representava o dilema entre matar ou morrer. Por outro lado, não é pouca coisa lembrar que foi o excesso de caçadas, promovido principalmente pelos invasores ingleses e europeus ao longo de mais de cinquenta anos, uma das reais causas, se não a principal do parcial extermínio dos tigres na região.
No segundo volume citado,
Os Mistérios da Selva Negra, vamos acompanhar na Índia as aventuras de Tremal-Naik, o caçador de serpentes, que se apaixona pela bela Ada. A jovem, filha de um oficial inglês, é prisioneira da seita assassina dos tugues, que a raptaram quando pequena, e a obrigam a viver reclusa no templo. Para empreender a arriscada aventura de salvar sua amada, conhecida como a virgem do templo sagrado, a serviço da deusa Kali, temida e venerada pelos tugues, Tremal-Naik conta com um fiel companheiro: o tigre Darma, que obedece a suas ordens e é capaz tanto de fazer-lhe companhia, quanto de atacar os inimigos a um comando seu. Depois de ter tido êxito em tirá-la do templo, terá de ser capaz de salvá-la do destino reservado a Ada pela sua tentativa de fuga: o onugonum, a morte na fogueira.
As aventuras desenrolam-se no mesmo ritmo alucinante das de Sandokan, ora nas
Sunderbunds e florestas, ora nas passagens subterrâneas cheias de perigo; e a coragem que o faz se sentir imortal, aliada a uma certa dose de coincidências fortuitas, fazem com que nosso herói consiga, com a ajuda de seus aliados, sobreviver às armadilhas dos inimigos e concretizar os planos da libertação de Ada. No final, Tremal-Naik terá feito jus à mão de Ada, devidamente prometida a ele pelo pai da moça, o capitão MacPherson, enquanto os tugues pela voz de seu chefe Suyodhana prometem continuar sua luta contra os dominadores ingleses.
E as
Sunderbunds são descritas de forma tão precisa no livro de Salgari que o repórter fotográfico e cineasta de aventuras italiano, Folco Quilici, na introdução de uma das edições salgarianas dos anos ’80, afirmou ter encontrado na Índia paisagens e cenas já familiares que remetiam a suas leituras da juventude; aqui no Brasil, bem recentemente, falo de meses atrás, em um documentário do ‘Globo Repórter’ que mostrou a região, ainda reduto dos tigres, foi possível ver com os olhos de agora o que o autor nos faz ver com suas palavras.
Em tempos de ‘transformers’, internet e iPods, Salgari nos faz voltar para a lamparina, as viagens de barco movidos a remo e a vela, os primeiros navios a vapor, as mensagens levadas através das trilhas na selva, os lugares exóticos e misteriosos. E se os leitores do século XXI pensam que Schwartznegger ou Rambo, Indiana Jones ou o Super-Homem inventaram a figura do herói da era ‘pós-cowboy’ que sobrevive às saraivadas de balas das metralhadoras e bombas inimigas e enfrenta sozinho centenas de inimigos ao mesmo tempo, se surpreenderão ao acompanhar Sandokan e Tremal-Naik em suas aventuras, e ao encontrar nas páginas desses livros homens realmente invencíveis, que vivem perigosamente todos os momentos, no ritmo frenético das corridas através da selva, das
Sunderbunds e dos labirintos subterrâneos.
Por fim, acredito que nós leitores de hoje, se ainda quisermos curtir uma aventura, temos a chance de acrescentar estas (e as outras que virão no ciclo dos ‘Piratas da Malásia’) a nossa lista de leituras, e assim viajar, com algumas concessões, pelos tempos e lugares da ficção no gostoso aconchego da nossa sala, ou no ambiente acolhedor – mesclando aromas de lagoa e de café – desta nossa biblioteca da Barca dos Livros.

Autor: Emilio Salgari
Títulos: Os Tigres de Mompracem e Os Mistérios da Selva Negra
Ilustração: Carlo Linzaghi (1900 – Os Tigres de Mompracem)
Traduções: Maiza Rocha
Editora: Iluminuras, 2008 e Iluminuras 2009.


 

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