De pai para filho, o amor à literatura


(Artigo primeiramente publicado no site Dobras da Leitura)

Um pai, crítico literário, explica ao seu filho de dois anos de idade em que consiste o seu trabalho e o que é a literatura, num belíssimo ensaio em forma de carta. Não sei se o menino daquele verão italiano de 1994 se tornou o leitor almejado pelo pai, mas sei que todos os adultos mediadores da leitura e os leitores apaixonados pela literatura de qualidade devem ler Se uma criança, numa manhã de verão, de Roberto Cotroneo. Justifico minha afirmação, eu que sempre desconfio de sugestões tão imperativas, quase ordens, como a que o entusiasmo por esse livro me fez escrever.

“Será possível escrever uma carta em forma de livro para explicar um prazer, o prazer da leitura?”, se pergunta o autor, lá pela 4ª página, quando já fomos cativados pela terna relação entre o casal e o filho, mediada pela vivência familiar com os livros condensada no “era uma vez uma joaninha” com que tudo começa.

É a passagem desta primeira fase, a saída do mundo onde realidade e  fantasia convivem prazerosamente, que preocupa o pai:

“Por enquanto, divirta-se com a história da joaninha, ou de Dumbo. Mas você vai mudar, e sentirá a necessidade de algo diferente. Precisará de novos livros: dispensará todas aquelas ilustrações de animais, ou as musiquinhas. Acabará ouvindo falar de uma coisa chamada romance, e também de poesias, irá aprender de cor as trovas de alguma cantiga, da qual talvez esqueça o final. E todos irão cair na gargalhada”.

O perigo, ele esclarece logo, mas sem o dizer, reside na diferença de concepção e de tratamento:

“E irá correr o risco de algum professor tentar, com toda a boa fé, impingir-lhe o valor sacramental do estudo, da obrigação de ler, do dever de saber; procurando fazê-lo sentir-se um ratinho muito pequeno se comparado com as grandes montanhas do gênio universal. Que ele não vai ensiná-lo a galgar, e sim fotografá-las, como um turista qualquer. Longe de mim a idéia de transformá-lo num alpinista das letras, Francesco (…), mas quero que saiba que a admiração deve ser sempre o ponto de chegada, nunca de partida. De outra forma não passa de misticismo, aliciamento amoroso, algo totalmente diferente”.

E se apresenta:

“A minha profissão é a de crítico, principalmente literário. Sou pago para expressar a minha opinião acerca dos livros que leio. Há pessoas que me pagam para eu exprimir estas opiniões sobre livros dos quais não gosto. É um exercício de estilo. Afinal de contas é muito mais fácil encontrar maus livros do que livros bons. O meu trabalho também serve aos leitores que não querem escolher o livro errado, que não costumam freqüentar livrarias e precisam da ajuda de alguém com mais experiência do que eles”.

Sem meias palavras, prossegue:

Eu não me canso de dizer-lhe que os livros não devem ser rasgados, que devem ser folheados com cuidado. Mas gostaria de esclarecer, igualmente, que eles não são sagrados: não precisam ser guardados a todo custo. A dignidade de um livro não consiste no fato de algum dia alguém ter encadernado páginas e páginas cheias de palavras. Fique sabendo que os livros podem até ser jogados fora. Aqueles que estão à sua volta, aqui em casa, são em sua maioria bons livros. Justamente porque muitos outros jamais tiveram a chance de permanecer por aqui: ficaram alhures, ou acabaram na cesta de lixo.”

A desmistificação cultural pode ser ensinada, desde cedo:

“Não tenha medo do futuro, meu querido, você não vai ser como tantos outros que, por acanhamento em relação à cultura, não se atrevem a manuseá-la, a brincar com ela, a recorrer ao paradoxo, a conversar com os autores sem ficar muitos degraus abaixo deles. A literatura não deve ser motivo de temor, Francesco, nem mesmo a mais difícil. Você não precisa perguntar: ‘Quer dizer que o senhor leu Joyce inteirinho, até a última página?’ Brinque com Joyce, ele iria gostar. Não transforme a poesia mais irrequieta numa mônada, numa coisa a ser admirada pela sua beleza inútil. Dante deve ser aprendido como cantiga popular, deve ser ouvido como música reggae, só que o seu ritmo é dado pelos tercetos, e não pela guitarra de Bob Marley que você já está querendo ouvir.”

E deixa claro que a sua tarefa é a de “apagar uma boa dose dos lugares-comuns que muitos tentarão botar na cabeça” do menino, e que isto não é fácil, que a margem de êxito é muito reduzida. Se a ameaça maior vem da escola, também é dela que pode vir a boa influência, como aconteceu com ele:

“Tive um professor de inglês excepcional no secundário: ensinou-me o que de fato vem a ser a literatura, e fez isto sem preocupar-se com a sacralização, sem colocar-se num plano mais elevado. Entrava numa sala cheia de garotos de quinze anos e perguntava: ’Já ouviram falar no Dr. Johnson?’ Referia-se a Samuel Johnson. Referia-se, melhor dizendo, à biografia de James Boswell: umas mil páginas. Nenhum de nós conhecia A vida de Samuel Johnson. O milagre dele consistia em levar-nos à leitura de livros como aquele e sem forçar, sem impor coisa alguma. Devo a ele muitas importantes leituras da minha vida mas, o que realmente importa, devo-lhe o ensino de um método precioso”.

Pouco a pouco chegamos ao fim da introdução, com a apresentação das “poucas obras selecionadas a dedo”. E claro, dos motivos pelos quais ele as selecionou: A ilha do tesouro, de Stevenson, “um livro para crianças porque ensina quão sutil e ambígua é a fronteira entre o bem e o mal; e que por mais doloroso que seja o percurso da aventura, mesmo assim não pode deixar de ser vivido”. ; O apanhador no campo de centeio, de Salinger, “para mostrar-lhe o que é a transgressão, mas também a ternura, e de como a transgressão e a ternura podem ser companheiras de viagem (…).; no mundo da poesia, os poemas John Alfred Prufrock e A Terra desolada, de T. S. Eliot, servirão para “perceber como alguma coisa importante se perde todos os dias, como já não sabemos falar”…e com O náufrago, de Thomas Bernhard, vem o mais complexo, reconhece, pois “com ele terei de explicar a coisa mais difícil: o talento, o ser e não o ter”…

Minha relação com este sedutor “manual de literatura” começou há muito anos atrás, quando encontrei num aeroporto francês o Lettre à mon fils sur l’amour des livres, que me atraiu pelo título. A ficha catalográfica me fez estremecer: o título no original italiano era uma homenagem explícita ao Se um viajante numa noite de inverno, de Ítalo Calvino. Comprei-o, claro, depois ganhei o original italiano e em seguida esta tradução, que, mais fiel ao original que a francesa, peca um pouco pela falta de ritmo de frase mais à brasileira.

E não me enganei, a ressonância da obra de Calvino é grande na carta de Cotroneo, ecoando nas categorias inquietação, ternura, paixão e talento a referência às Seis propostas para o próximo milênio. Com leveza, o crítico italiano do L’Espresso comprova uma de suas máximas, a de que os grandes críticos põem em contato livros diferentes para entender um número maior de coisas do mundo.

E, completo eu, de passagem, bons críticos ensinam. Muito se pode aprender com esse terno e provocativo ensaio.

COTRONEO, Roberto. Se uma criança, numa manhã de verãoCarta a meu filho sobre o amor pelos livros. Tradução de Mario Fondelli. Editora Rocco, 2004.

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