3 X Jorge

Há três novos livros de Jorge Miguel Marinho nas livrarias, todos editados pela Biruta, editora de São Paulo. Na verdade, apenas um é lançamento, primeira edição em 2008: A maldição do olhar. A visitação do amor e Na curva das emoções – este premiado como melhor livro juvenil de 1990, pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e destacado como Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) – são reedições muito bem-vindas. Entre os antigos em nova roupagem e o inédito, Jorge não ficou quieto: escreveu outros livros, entre os quais é impossível não citar Te dou a lua amanhã e Lis no peito: um livro que pede perdão, que receberam Jabutis e Prêmio Orígenes Lessa, e encantaram tanto jovens leitores como adultos que não se deixam limitar pelas etiquetas do mercado editorial. Leitores que buscam nas narrativas as qualidades que as caracterizam como obra literária, como criação ficcional – simplificando, o conjunto de bom enredo, personagens verossímeis, ritmo, tempo e espaço adequados, tudo bem estruturado num todo bonito e sedutor – sempre as encontram nos livros desse escritor, independente da catalogação como infanto-juvenil, juvenil ou ficção brasileira. Isso porque toda a arquitetura literária se tece com a linguagem, o cimento que a sustenta é a palavra, e Jorge, mestre e bruxo no uso das palavras, trabalha-as com a intensidade artística necessária à transformação em linguagem literária. O que mais me encanta nos textos criados por Jorge é a capacidade de sedução pela linguagem.

A maldição do olhar
Isso fica evidente para o leitor dessa novela surpreendente do começo ao fim. Navegando na onda do vampirismo, nova moda entre adolescentes, é com uma grande dose de humor e ironia que a história de Alê, possuidor de genes vampirescos, se desenrola entre humanos, vampiros decadentes e personagens ficcionais. “Olho minha face no espelho para saber quem eu sou”: sob a égide dessa epígrafe de Jorge Luis Borges a angústia, as incertezas, as surpresas, as indefinições na vida do jovem que não se sabe humano ou vampiro, são apresentadas em seu diário e por um narrador mais que intrometido, além daquela outra personagem quase eterna, a Alice dos espelhos…
“Que livro mais louco! Li do começo ao fim direto, não consegui largar, mas não entendi nada!”, foi a apreciação sucinta de uma experiente leitora de treze anos, a quem recomendei a leitura. ‘Maravilha”, respondi, “eu também não”. E trocamos idéias sobre não entender uma única coisa nos livros de literatura, porque tudo fica em aberto, tudo pode e não pode. Se se acredita em tais coisas?  Pelo sim e pelo não… E concordamos:não se consegue abandonar a leitura porque é muito bem escrito, porque é muito misterioso, porque “é muito louco, ora!”. Quer melhor elogio?

A visitação do amor
Conhecido pelas homenagens aos escritores que ama e conhece muito bem, Jorge não tem pejo em explicitar sua admiração por Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade numa dedicatória que é, ao mesmo tempo, preâmbulo indicador de pistas para seus leitores: a delicadeza da música e do vôo dos anjos nos espera nesta visita do amor. E também no sumário os títulos dos capítulos anunciam o jogo de intertextualidade, mostrando o universo literário em que se movem personagens, cenários, tramas e dramas. Não se passa batido por um índice que começa por um “Abre-te, história” e que joga iscas como “ O anão violinista e seu enorme cachecol”, “Diga, espelho meu!”, “A eterna solidão das fadas”, “O pequeno reino sem som” e “Nem Cinderela, nem Rapunzel, apenas Tereza caída do céu”!  É com a alegoria do universo bíblico e dos contos de fadas que a vida sui generis de Antônio nos é contada, vida vivida quase num jogo entre a sensaboria do cotidiano e os momentos de êxtase proporcionados pela música, pelo canto, pela dança. Mas a arte é perigosa, decidem os prosaicos poderosos e a alegria deve ser varrida do pequeno reino: quem vencerá esse duelo? Publicada pela primeira vez em 1987, escrita, portanto, em tempos ainda muito sombrios em nosso grande reino, a novela conserva a força e o frescor da atemporalidade artística.

Na curva das emoções
Sete são os contos reunidos neste livro, e todos eles contam histórias aguda e intensamente vividas por jovens, rapazes ou moças que poderiam ser o seu filho, sua aluna, sua vizinha ou a namorada de seu sobrinho, ou ele mesmo, por que não? Ou poderia ter acontecido com você, ou é o papel da mãe atarefada perdida na fantasia de mãe moderninha que lhe lembra alguém… São as primeiras dores de amor, a revolta por não caber no modelo familiar, a solidão, os segredos, os medos e o salto no escuro das descobertas sexuais e amorosas que Isaura, Ana, Augusto, Pedro e outros personagens compartilham com os leitores que passam por experiências semelhantes ou por outros mais velhos que, se tiverem boa memória, reconhecerão como suas. Afinal, quem já não se sentiu mal na própria pele? Publicados pela primeira vez em 1986, “O umbigo de Isaura”, “A libertinagem das mães”, “O seio tatuado da minha avó” e todos ou outros não envelheceram e a reedição é mais do que justa.

Os leitores da Biblioteca Barca dos Livros podem, desde já, levar um desses Jorge para casa e verificar se tenho ou não razão quando afirmo que o que ele escreve é literatura das melhores. E, se quiser dar a sua opinião, ótimo, falar de livros é a nossa praia

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