Esses cronistas maravilhosos e suas palavras voadoras

(origem e tradição da crônica)

Jorge Miguel Marinho
(Escritor convidado)

“A história que agora passo a contar do início explica em grande parte por que ainda acredito no ser humano – ô, raça! Tutty Vasques

A crônica aqui entre nós se casou tão bem com o espírito brasileiro, com a vontade de se confessar nas coisas miúdas e extrair delas uma história maior, com o calor afetivo de um povo que, espontâneo nos atos, se quer espontaneamente expressivo na linguagem também, com as necessidades de um país novo que busca a sua identidade com os olhos no mundo e um olhar mais decisivo no local, com aquela versatilidade camaleônica que precisa de muitas vozes e muitas formas de expressão para se auto-afirmar, com a pressa de leitura de um mundo que tem urgência de se ver e se reconhecer nas suas palavras e no seu lugar – que este gênero jornalístico, hoje significativamente literário, que ainda resiste a uma classificação formal, é tão presente no processo de formação da Literatura Brasileira e igualmente tão singular na afirmação das nossas Letras que se pode dizer, com segurança, que a crônica é um modo muito nosso de ser.

E de onde vem a crônica?

Machado de Assis, como a maioria dos nossos escritores, também foi cronista e, junto com José de Alencar e Joaquim Manuel de Macedo, fez parte do primeiro time de “cães farejadores do cotidiano” – numa expressão feliz de Antonio Candido para registrar a avidez pela “reportagem da vida” que progressivamente vai se tornar na nossa tradição literária um encontro único entre literatura e jornalismo, gênero que os escritores brasileiros dominam como poucos e, por que não dizer?, como ninguém.
Pois é o nosso Machado mesmo que, brincando seriamente e se autodenominando “escriba das coisas miúdas”, desvenda “O nascimento da crônica”, não por acaso numa crônica com este mesmo título, afirmando e fabulando com aquele humor inteligente que a natureza ou a origem da crônica nasce de uma trivialidade como exclamar “Que calor!”, para depois conjecturar “acerca do sol, da lua, da febre amarela, dos fenômenos atmosféricos” e outros calores da alma humana. E mais: que este tom tão trivial e aparentemente bisbilhoteiro da crônica é mais velho do que Esdras, Abraão, Isaque e Jacó, sugerindo para nós leitores que é mais velho até do que Noé que – por essas veredas da fábula, não é nenhum pecado imaginar -, muito provavelmente, se utilizou do ritmo exclamativo e prosaico da crônica para anunciar ou quem sabe irradiar a iminência do maior dilúvio de todos os tempos, ameaça ou notícia esta em que, com a graça de Deus, teve gente que acreditou.
É isto: por seu caráter de prosa, colóquio, confissão, comunicação imediata, “graça”, sentido telegráfico, urgência, trivialidade e até mesmo brincadeira ainda que o tema solicite o tom da seriedade, não dá para precisar em que época nasceu a crônica, mas é muito provável (e ainda quem nos alerta é Machado) que a crônica aconteceu pela primeira vez quando as duas primeiras vizinhas, depois das tarefas do jantar, se sentaram na porta de casa para papear sobre o dia e agarrar a transitoriedade da vida com palavras triviais e “voadoras” porque aparentemente dispersas, palavras com ar de coisa nenhuma, mas no fundo necessárias e urgentes como o impulso natural de comunicação entre dois amigos – escritor e leitor – que, se confessando no rés-da-calçada e nas miudezas da vida, revelam a  complexidade da condição humana e a experiência única de viver.
Carlos Drummond de Andrade que, como Rubem Braga e Clarice Lispector, imprimiu poesia e estados de alma à crônica, diria melhor sugerindo por sua vez, num poema, o sentido atávico e até mesmo inexorável da linguagem como busca do outro e, por ser raiz e matéria tão antiga e presente na natureza humana, ilustra muito bem a origem remotíssima da crônica, para usar uma imagem nossa, “um vôo breve com o tempo da eternidade”, puríssimo diálogo:

Escolhe teu diálogo
e
tua  melhor  palavra
ou
teu  melhor  silêncio
Mesmo no silêncio e com o silêncio
Dialogamos.

Só para iluminar mais a simplicidade e a sutileza, por vezes, até refinada da crônica, é quase uma sorte poder recorrer também às palavras de Manoel de Barros, hoje carinhosamente acolhido por leitores de todas as idades como “o grande poeta das coisas pequenas”, entendendo que ele levou a “herança e a ciência da crônica” para os seus poemas em prosa e avisa, com voz de cronista, que “Para apalpar as intimidades do mundo”, labor precioso da crónica, “é preciso saber que o esplendor da manhã não se abre com faca” e que, no jogo literário, a gente tem de saber muito bem “como pegar na voz de um peixe”.
Enfim, como pegar com as palavras as pequenas coisas, agarrar o grande com a sabedoria do miúdo, revelar a dimensão humana nas suas porções mínimas, escutar a vida cotidianamente, atenções estas presentes em todos os tempos e em todas as formas literárias, mas em nenhum deles com o sentido de permanência, a singularidade e o ‘à vontade’ do ofício de ser cronista.

E, aqui no Brasil, dá para situar o começo da crônica?

A crônica como gênero literário só vai aparecer em 1854 com José de Alencar escrevendo para o jornal Correio Mercantil o folhetim “Ao correr da pena”, título sugestivo para ilustrar a leveza e o tom corriqueiro da matéria que comentava desde a presença da máquina de costura que roubava a graça do dedilhar das agulhas, passando pela euforia tola das danças e dos costumes que invadem o Rio de Janeiro, até o furor especulativo da época e a indiferença da nação diante da Guerra da Criméia.
Mas o espírito de cronista já está presente na “certidão de nascimento” da Literatura Brasileira: a carta de Pero Vaz de Caminha que, com o entusiasmo de cronista, a precisão no registro objetivo e circunstancial do fato e um certo tom segredado da conversa de comadres escrita com “engenho e arte”, relata ao el-rei D. Manuel, com olhos de descobridor interessado, os benefícios e os malefícios da Terra de Vera Cruz.
Isto ainda não é arte literária, mas o ofício de cronista é a primeira voz, ainda que embrionária, das nossas Letras e vai ocupar um lugar de destaque a partir de meados do século XIX na Literatura Brasileira, persistindo como uma espécie de “idioma nacional” e compondo uma galeria de cronistas maravilhosos que, com suas palavras voadoras, solidárias ao registro factual e aos vôos imaginários, mais parecem uma comunidade de alquimistas que vão das memórias aos flagrantes do dia-a-dia, da piada às inquietações metafísicas, do diário às digressões filosóficas, do ultimato às cartas literárias, dos apelos de alma à ironia mordaz, da denúncia social à contemplação introspectiva, das confissões poéticas ao comentário chulo, do humor à compaixão, da “bolsa à vida”, apenas para registrar seus extremos.
Em todos o tom da oralidade e o sentido da solidariedade que fazem do leitor um interlocutor que se reconhece na matéria, sempre expressa com fôlego de experiência vivida, até mesmo como co-autor dessas páginas escritas como uma espécie de subjetividade coletiva.
É fato mais que conhecido no universo das palavras que o clima de conversa ao pé do ouvido da crônica, tocante e ao mesmo tempo volátil, e que Manuel Bandeira, cronista na prosa e cronista na poesia, chamou puxa-puxa, provoca no leitor um desejo enorme de escrever crônica também.
Por tanta expressividade e tantas formas de expressão, vale fazer um percurso de leitura pelos labirintos da crônica desde João do Rio e Lima Barreto que chegaram a criar personagens, sátiras e mesclar ficção e realidade nos seus folhetins dos primórdios do século XX, até os mais atuais, que escrevem diariamente para as mais conhecidas revistas e jornais brasileiros, como André Sant’Anna que chega a suprimir a pontuação para “perder o fôlego” de tanto ódio e adoração por São Paulo, Antonio Prata que vai ao ápice da auto-ironia amorosa de sua própria classe social ou Tutty Vasques que, com o eterno espírito solidário da crônica, confessa que é cronista “por que ainda acredita no ser humano”.
É isto: nesse trajeto tão humanamente nosso que recupera e reassume algo da versatilidade do herói Macunaíma enquanto “história de busca” e constante desejo de se reinventar, a nossa crônica avança e retorna no tempo criando novos modos de cultivar, na própria respiração das palavras, o ofício de contar e elegendo sempre o tema da “solidariedade” entre cronistas e leitores como norte da experiência imperdível de ler. E é por essas veredas de sensível e puríssima comunicação que ela veio se aclimatando desde os “tempos que já lá vão” com a pena missionária do padre Manuel da Nóbrega ou do padre José de Anchieta no Quinhentismo e se firma progressivamente nas décadas de 1930 e 1950 de forma única e originalíssima no Brasil, acolhendo o que as vanguardas ofereciam de melhor nos idos de 22, entrando no ritmo da bossa nova com a aparente simplicidade de quem conta e faz “reportagem da vida” com uma nota só, festejando ou não a criação de Brasília, comemorando a primeira vitória da copa do mundo, “caminhando contra o vento sem lenço nem documento” nas passeatas e comícios dos anos sessenta, transitando sempre na contramão dos artifícios e de toda e qualquer ditadura de expressão, por estar a serviço da vida, a parte melhor de toda essa sua história.
Pensando mais uma vez junto com Antonio Candido, ela, a nossa crônica, “pode servir de caminho não apenas para a vida que ela serve de perto, mas para a literatura” como querem, do fundo do coração e na memória do tempo, todos os cronistas ou folhetinistas de fato como eles eram chamados, nesse nosso país tão cronicamente tropical.

E, para provisoriamente por um ponto final nessas linhas que já estão com vontade de virar crônica, como vai ela hoje em dia?

“Muito bem, obrigada”, ela grita leve e solta nas entrelinhas dessa conversa ligeira, sempre abusando lindamente da liberdade de expressão que é seu território livre para o trânsito das idéias. Isto porque, quando se lê uma crônica que é crônica mesmo, coisa que só lendo para descobrir, a gente se perde no tempo imemorial de todos os tempos sem o menor interesse de se achar, a gente fica como Carlos Heitor Cony naquela crônica que conta a sua história de amor com a sua cadelinha “Mila”: com a breve eternidade da crônica que, igual à cachorrinha, nunca quer ser maior do que a nossa alegria ou tristeza, a gente “perde o medo do mundo e do vento” e fica com saudade das crônicas que ainda não leu.

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