VINGANÇA EM VENEZA

Há seis séculos….

contavam-se histórias, escreviam-se histórias e, neste caso, fugia-se até mesmo da peste com as histórias. Como? Refugiando-se fora de Florença, tomada pela peste negra no ano de 1348, e passando os dias a cantar, contar histórias e dançar. Quem? Um grupo de jovens do qual faziam parte sete moças e três rapazes, que se organizaram da seguinte forma: a cada dia um deles era eleito ‘rei’ ou ‘rainha’, a quem cabia fornecer o tema para aqueles verdadeiros contadores de histórias e cada um dos outros nove participantes contava assim a sua história, que somada à do coroado da vez completava as dez histórias do dia. Dez dias, dez histórias por dia: temos como resultado uma obra grandiosa, o Decameron de Giovanni Boccaccio, com seus cem contos, e um sem número de personagens. Muitos de nós já conhecemos essas histórias por ter lido as ‘novelas’ em tradução ou em italiano; outros, através de filmes – famoso o de Pasolini – ou ainda de peças teatrais que as utilizaram nas performances. Em pleno século XIV, Boccaccio, diferentemente de seu contemporâneo Petrarca, que escrevia suas obras em versos [e que sonetos!] escreveu sua principal obra em prosa. Uma prosa fruto da observação inteligente e maliciosa do povo, dos costumes, da esperteza, da felicidade, da zombaria e do componente trágico da vida. É como se o autor olhasse pelas janelas da cidade e usasse da pena para retratar as cenas que via, que intuía, ou das quais tinha ouvido falar, que complementava com a imaginação. E sua prosa não poupou ninguém: padres, freiras, senhoras casadas, donzelas, jovens e velhos, homens nobres, cidadãos simples, governantes e soberanos. Um verdadeiro cadinho de personagens vivendo como vivemos nós, medievalmente, driblando as mazelas da vida e dos governos, tentando com a inteligência sair de situações complicadas, às vezes traindo, às vezes sendo traídos, buscando o amor, a comida farta, alguém que nos financie as letras e as artes, em suma, vivendo. Isso que faz da prosa de Boccaccio um texto que pode ser lido ainda hoje, com o frescor de uma história contada numa roda de amigos.
Certamente não falta em seus contos o componente erótico, que por sinal ao longo do tempo tem sido a causa de censura e de rotulação, quase que definindo como pornográficos avant-lettre aqueles quadrinhos apimentados muitas vezes envolvendo, é preciso dizer, membros do clero, em masculino e/ou em feminino.
É o caso também da personagem que aparece em
Vingança em Veneza. Quem lê o conto, logo percebe a ironia com a qual a personagem é descrita: considerado um homem de bem, nada parece macular sua figura. É como diz o ditado que cito em italiano: “chi è reo e buono è tenuto, può fare il male e non è creduto” (Decameron, Milão, Rizzoli, 1992, vol. I, p. 284) – traduzido por “Bandido que passa por bom moço, escapa de ser punido” (p. 8), que talvez soasse melhor com uma pequena inversão: “Quem passa por bom moço mas é bandido, escapa de ser punido”. A partir deste ditado, a rainha daquela rodada de histórias, Pampinea, desenvolve sua narrativa que quer também demonstrar “o tamanho da hipocrisia dos religiosos”, os quais, com suas “vozes humildes e mansas” querem penitenciar os outros pelas suas próprias falhas e vícios. E a crítica aos costumes do clero de seu tempo não pára por aí: “não agem como homens que vão em busca do paraíso como nós, mas sim como seus senhores e proprietários, atribuindo a cada um que morre lugares melhores ou piores conforme a quantia de dinheiro que lhes foi legada” (p. 8). Põe assim o dedo na ferida em relação ao clero por causa das conhecidas simonias que – punidas por Dante ao colocar muitos papas no inferno, enfiados em buracos estreitos, de cabeça para baixo e com chamas nas plantas dos pés – mereceram inúmeras críticas naquele tempo e dois séculos mais tarde figuraram como item imperativo na lista das teses reformistas de Lutero.
Desse pecador que se torna frei, com o nome de Alberto de Ímola, ficamos sabendo que “de ladrão, rufião, assassino, tornou-se de repente um grande pregador” (p. 9). Mudou-se para Veneza, cidade que “acolhia todo tipo de imundície” (p. 8 ) e “de lobo passou a pastor” (p. 9), pregando e conquistando a plena confiança de muitos, tanto que passaram a lhe confiar dinheiro e testamentos.
Um dia, durante uma confissão, ao perguntar a uma senhora se tinha amantes (normal questionamento confessional!), vê-se diante da mulher que se gaba de poder ter qualquer amante, dada sua beleza incomparável. Frei Alberto logo percebe estar diante de uma tonta faladeira e resolve tirar partido da beleza e da estupidez da mulher. Assim é que a convence de que o anjo Gabriel está apaixonado por ela e pronto para visitá-la à noite em seu quarto, o que deixa dona Lisetta extremamente exaltada.
Mas, convencida de sua beleza esfuziante, concorda em receber o arcanjo Gabriel no corpo de frei Alberto, que por sua vez faria esse ‘sacrifício’ em troca de ter sua alma levada ao paraíso pelo tempo que o anjo se deitasse com dona Lisetta. Uma esperteza que deleitou a ambos por algum tempo, até o momento em que a mulher se gabou desse fato com uma de suas amigas, pedindo segredo, o que fez com que toda Veneza soubesse do fato e risse da ‘bela tonta’. E a vingança?
A vingança ficou por conta da pena que acabou sendo infligida ao ‘bom’ frei Alberto: em plena praça, nu, todo lambuzado de mel e coberto de penas, foi reconhecido como o anjo que se divertia com dona Lisetta e deixado amarrado em um poste até que outros frades o levaram para uma cela do convento onde ficou, dizem, até morrer.
Assim termina esta tragicomédia que não poupa nem o frei nem a mulher com sua ironia pungente, embora não deixe de sugerir (ou será uma leitura do século XXI?) que dona Lisetta, contando com a ausência do marido comerciante, tenha aproveitado por sua vez dessa ótima oportunidade, já que frei Alberto não deixava de ser um homem “bem feito de corpo, robusto” (p. 14), apesar de não ser mais tão jovem.
Se nos ativermos a essa descrição de frei Alberto, nos causa certa surpresa a interpretação figurativa dada pelo ilustrador Carlos Nine, responsável pelas ilustrações, mas sua caricatura da personagem, na verdade, consegue transmitir uma gama de características que, pinçadas ao longo da história, fazem sentido naquele velho feio, espertalhão e mulherengo que sai das páginas de Boccaccio. Além disso, o ilustrador personalizou o conto com um estilo muito pessoal e diferente, que fascina.
O tradutor Nelson Moulin lidou com o desafio de tornar mais direta e contemporânea a narrativa e a fala das personagens, e levou essa tarefa ao seu final com maestria. O fato de ter utilizado termos por vezes inusitados é complementado pelo glossário que aparece no final do volume, abrindo novas possibilidades de ampliar o próprio vocabulário para um leitor na faixa etária proposta. Duas observações no que se refere à tradução de expressões idiomáticas causaram-me uma certa vontade de participar a posteriori da tradução (privilégio de leitor): no texto de Boccaccio existe a expressão “quando andava a correr le giumente” (p. 288), que no italiano atual corresponde a outra expressão, “correr la cavallina” (nota p. 288) que significa ‘gozar a vida’, ‘pintar o sete’, sair atrás de mulheres; já no texto em português a escolha do tradutor que resultou em: “a fim de ir caçar jumentas” ( p.14), a meu ver, fica incompreensível. A outra observação refere-se à tradução da expressão que aparece no momento em que se descreve o físico de frei Alberto: “stavangli troppo bene le gambe in su la persona” (p. 288), que no italiano de hoje corresponderia a “essere in gamba” (nota p. 288). O tradutor optou por “era robusto e suas pernas combinavam com a pessoa” (p. 14), no entanto a expressão italiana nesse contexto poderia ser traduzida por “estar em forma”, ou “estar em boa forma física”.
Por fim, para coroar seu percurso, o leitor encontra um breve currículo do tradutor e do ilustrador, bem como uma biografia sucinta desse autor florentino que pela sua inovação estilística foi, e é considerado, juntamente com Dante e Petrarca, um dos iniciadores da literatura italiana, na sua especialidade, a ‘contação’ de histórias em prosa. É disso que a gente gosta, é isso que a gente quer: novas edições, novas traduções, novas possibilidades, inesgotáveis, de leitura.

Título: Vingança em Veneza
Autor: Giovanni Boccaccio
Tradução: Nelson Moulin
Ilustração: Carlos Nine
Editora: CosacNaify, 2008

Publicado inicialmente em Dobras da Leitura em 20-02-2008.

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