Parafuso solto

O Vigário de Mastigassílabas (“The Vicar of Nibbleswicke”) conta a história do vigário Jonas Azambuja, um novato que foi servir pela primeira vez na paróquia da cidadezinha de Mastigassílabas.

Acontece que, durante a infância, o vigário sofreu de uma grave doença chamada Dislexia-De-Trás-Para-A-Frente-E-Ao-Contrário, que o fazia trocar letras, sílabas, palavras e também inventar rimas quando falava. Mas graças a um tratamento com excelentes professores, antes dos 18 anos o vigário já tinha recuperado a sua capacidade de ler e escrever (quase) normalmente.

Ao chegar em Mastigassílabas, porém, acontece o pior: um parafuso se solta na cabeça do Jonas Azambuja e alguma coisa relacionada aos seus problemas disléxicos reaparecem junto com o nervosismo de seu primeiro sermão.

Durante a missa, o vigário diverte os fiéis trocando sílabas de palavras como em “perdoe os nossos pescados, assim como pescamos os pescados dos outros” e dá a eles a benção de “Deus Todo-Gorduroso”.

O médico da cidade, então, receita ao vigário um remédio muito simples: andar de costas enquanto está falando, assim as sílabas trocadas voltariam a sair na ordem correta.

Este simpático livro de Roald Dahl foi escrito sob encomenda para o Instituto de Dislexia de Londres e publicado logo após a sua morte em 1991.

O nome “Jonas Azambuja”, bem como o nome da cidade,  são exemplos de escolhas muito criativas por parte do tradutor Alexandre Cataldi. Aliás, traduzir Dahl, como traduzir Lewis Carrol, é um desafio para artistas.

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O Vigário de Mastigassílabas 

Roald Dahl

Ilustrações de Quentin Blake

Tradução de Alexandre Cataldi

editora 34, 2016

 

 

 

 

O dia de ver meu pai

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O dia de ver meu pai é um livro para ser relido várias vezes. A história de Vivina de Assis Viana foi publicada nos anos 70 e em 2016 ganhou uma nova edição, com ilustrações de Rogério Coelho juntamente com seu filho Pedro Coelho.

O personagem Fabiano, que vê o pai só aos domingos, tenta entender porque seus pais sentem tanta amargura. “Então, na vida, a gente escolhe umas pessoas e deixa outras? Como time de futebol? Como roupas ou brinquedos, numa loja? Como viajar ou ficar? Então é assim? Será assim?”

Os dramas da separação dos pais e da relação entre pais e filhos podem não ser temas novos, mas a linguagem direta e fluida de Viana é uma joia rara. O fato da autora tocar com leveza nas angústias da alma também faz esse livro ser diferente de outros mais preocupados com a didática ou com a popularidade dos seus personagens. Será a influência de Graciliano Ramos? Será?

O dia de ver meu pai

Vivina de Assis Brasil, ilustrações Rogério e Pedro Coelho

Ed. Lê, 2016

 

Tio Flores

Tio Flores é um homem negro, careca, e com muita experiência em corte e costura. O sobrinho o ajuda quando não vai à escola, e às vezes eles param para tomar café ou coca-cola enquanto o Tio conta histórias de antigamente. São histórias de pessoas e sua relação com o Rio São Francisco e de uma fábTio_Flores.jpgrica que, aos poucos, vai mudando o cotidiano dos
moradores.

A escritora Eymard Toledo, brasileira que vive na Alemanha, deu conta das duas versões em alemão e português, e ainda assina as lindas ilustrações que mostram de maneira muito peculiar a casa, a fábrica, a fictícia cidade de Olho D’água e seus habitantes. O livro recebeu um prêmio da Academia Alemã de Literatura Infantojuvenil para livros de conteúdo ambientalista. No Brasil, merece as boas vindas e votos de sucesso!

Tio Flores

Uma história às margens do Rio São Francisco

Eymard Toledo

Ed. V&R, 2016

Por que os Moomins são uma unanimidade?

 

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Em 2016 várias leitoras do Núcleo de Pesquisas da Barca dos Livros aprovaram e recomendaram a leitura de “Os Moomins”. Escritos em sueco
pela finlandesa Tove Jansson, foram recentemente traduzidos do inglês
por Ana Carolina Oliveira (ed. Autêntica).

“Um Cometa na Terra dos Moomins” (2015), “Os Moomins e o Chapéu do Mago”
(2015) e “Os Moomins e o Dilúvio” (2016) são apenas três dos nove livros
que Jansson escreveu e ilustrou entre 1939 e 1970. Os Moomins demoraram
anos para chegar ao público brasileiro, tendo que passar primeiro pelo
sucesso na Europa, Ásia e Estados Unidos, com reedições e séries de TV,
até chegarem como “Mumin” em 2010 pela editora Conrad e “A Família
Múmin” em 2011 com tradução de Carlos Heitor Cony (ed. WMF Martins
Fontes).

Moomin, ou Mumintroll em sueco, é o personagem principal. Passa o dia
brincando com outros agregados da família e tentando lidar com as
catástrofes naturais que acontecem pelo vale onde mora. São inúmeros
seres que o leitor encontra pelo caminho, cada um com características
boas e más (com excessão de Moomin Mãe, que é sábia e resolve os
problemas de todos). São criaturas fantásticas e ao mesmo tempo e
profundamente humanas. Engraçadas e curiosas, elas seguem a vida
buscando o que no muitos de nós também busca: sobreviver com uma certa
leveza e alegria.

Não é a toa que o trabalho de Jansson foi muito premiado.
Estamos aguardando os demais volumes!

Contêiner

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Como é bom ler um livro sem palavras!

Em Contêiner, de Fernando Vilella até se leem umas palavrinhas, mas o barato aqui é curtir o visual. São três navios que passam por três países do mundo, China, Inglaterra e Brasil. Em comum levam, sem querer, um gato e um cachorro dentro de um dos seus contêineres, e aí é claro que o bicho pega.

Os portos com seus milhões de guindastes e caixas, o mar imenso e a paisagem de cidades portuárias são o pano de fundo dessa história que gira o mundo. O design tem a cara de outros trabalhos do artista (lembram de Lampião e Lancelote?), em que poucas cores, muitas linhas e alguns a traços espontâneos dão o tom plural e colorem a paisagem.

Ao final, um informativo com um mapa e algumas legendas acrescentam a esta narrativa visual as letras que alguns talvez procurem tanto. Aqui o autor conta sobre os portos que retratou e a origem do nome de cada um dos navios. Quer embarcar num contêiner do Rio a Hong Kong? Reserve 42 dias, tente entrar num contêiner, ou mais fácil, viaje neste livro!

Contêiner

Fernando Vilella

Pequena Zahar, 2016