Poesia? Tem na Barca!

 

POESIAgoes

isto é a vida:

pinte

borde

trans

borde

Isto é a poesia, diria, se pudesse reinventá-la – é assim que Múcio Góes faz poesia: pinta, borda, transborda os sentidos. Faz poesia como presença no cotidiano, em ritmos inesperados, em rimas inusitadas, em imagens imponderavelmente líricas, mas de uma simplicidade que encanta enquanto surpreende.

Um lirismo de tom prosaico, que nos toca pela aparente singeleza do vocabulário e pelo jogo de palavras que atrai e nos revela, confessando: “eu sou do tipo/ que costura/ versos com a/ linha do equador”. O título é poema e poesia, e os demais poemas são daquele tipo que quando a gente lê em voz alta suscitam um “ah” que se prolonga e irmana e aquieta e inquieta, tudo junto e separado, como só a boa poesia sabe fazer.

E ela, a poesia, está por toda parte, desnudando a composição poética presente nas coisas e gentes e sensações e sentimentos, em linguagem singular cheia de plurais, à espera e à espreita de leitores distraídos prontos pra curtir “de repente/ tudo como dantes/ um realce/ um relance/ um relógio esperando/ para nos dar/ outra chance// let’s go/ baby/ let’s go// let’s dance”.

E termino roubando as palavras de Leo Cunha, organizador dessa antologia: “Ágil, concisa, inventiva e bem-humorada, a poesia de Múcio cria um universo coeso…” E mais adiante: “…uma poesia que mira fascinada o universo, mas ao mesmo tempo examina o que há dentro da alma de cada um de nós”.

A ler, pois!

texto: Tanira Piacentini

 

Eu sou do tipo que costura versos com a linha do Equador

Múcio Góes

Org. Leo Cunha

Positivo, 2015

 

Sobre o mercado de livros infantis e juvenis

Quem tem curiosidade em saber sobre o mercado editorial brasileiro de hoje pode encontrar maravilhas na internet. A Taba, por exemplo, além de fazer um trabalho de curadoria de livros infantis e juvenis, tem publicado bate-papos preciosos online.

No vídeo de 2016 Mercado editorial de livros infantis e juvenis, as editoras Daniela Padilha (Jujuba), Isabel Coelho (FTD Educação) e Márcia Leite (Pulo do Gato) respondem a perguntas de Denise Guilherme sobre os principais desafios para os editores de literatura infantil e juvenil no cenário atual. E já que este assunto aparece pouco, resolvemos destacar alguns momentos da conversa.

No vídeo, as editoras apontam para as complexidades da produção de livros. Alguns dos problemas que enfrentam em seus trabalhos incluem a falta da cultura de valorização do livro na educação brasileira e o fato de que em grandes livrarias o comprador não chega a ser exposto a livros variados. Ao mesmo tempo, afirmam que temos um mercado com diversidade cultural e espaço para todos. Ufa!

O papel dos mediadores é fundamental, são as pessoas que levam e apresentam o livro ao público nas livrarias, escolas, feira de livros e bibliotecas. Sobre a situação das bibliotecas brasileiras, bem, cada um pode investigar na sua cidade… O que as editoras apontam é que a relação de muitas pessoas com o livro acaba quando elas deixam a escola e, portanto, param de ler quando não têm mais acesso à biblioteca escolar.

E a crise? Que crise? O que temos hoje (ou há um ano atrás quando o vídeo foi publicado) são muitas opções de compra, mas também escolas parando de indicar livros literários. Ao que tudo indica, a crise chega quando o governo deixa de comprar livros de literatura, diminui seus investimentos e há mais concentração de títulos nas livrarias. A falta de novidade está na distribuição: do modo em que o produto é escoado ele não atinge sua potencialidade.

Bem este foi só o primeiro de uma série de bate-papos que estão publicados lá no site da Taba http://ataba.com.br/category/ bate-papo/page/2 e que estamos ainda curtindo por aqui.

taba

Um dia, um rio

Um-dia-um-rio_capa_altaUm dia, um rio  presenteia o leitor com uma autobiografia diferente. Nesse livro, Leo Cunha e André  Neves empregam poesia e imagens para mostrar os terríveis efeitos do vazamento da lama de mineração no Rio Doce, em Mariana (2015). Suas metáforas, simples e claras, não deixam dúvida quanto ao alcance da tragédia para toda a região, conforme dizem os versos: Nas minhas dobras não sobrou um peixe,/um sapo,/ uma cobra,/ Ninguém pra contar a história./Hoje quem conta a história / Sou eu. Versos esses arrematados, nas páginas seguintes, por imagens de uma sequência de brancas ossadas de peixes em fundo cor de lama ferruginosa e o terrível verso constatação:  Eu fui um rio, um dia. O resultado, pode-se dizer, é essa belíssima  e pungente homenagem ao Rio Doce e a todos os rios…,um livro poema para deleite de leitores independentemente de idade!  Um verdadeiro livro poema!

 

Um dia, um rio
Leo Cunha
Ilustrações de André Neves
Pulo do Gato, 2016

Era uma vez um inverno…

Quem procura uma história conhecida (e mesmo quem não procura nada!) vai se surpreender com este livro, considerado pelo grupo do NEP como um “queridinho” entre os lançamentos de 2016. É um delicioso reconto de Gil Veloso, delicado e bem humorado. Excelente projeto gráfico da Editora Pulo do Gato, cuidadosa na escolha da fonte, espaçamento e qualidade do papel. Palmas também para as ilustrações de Iban Barrenetxea, que trazem toques de ironia em seus traços marcantes.

Aqui vai um gostinho da história para vocês:

“Orgulhosa, insegura e vaidosa, a rainha madrasta era demais egoísta, não suportava a ideia de alguém ser mais bonita que ela.

Vivia entediada. Naquele enorme castelo, coisa nenhuma a satisfazia. Não gostava de nada, não sabia coser, em com s nem com z, tampouco cuidava ou brincava com Branca de Neve.”

Vejam lá com seus próprios olhos o que vai acontecer…

branca

Branca de Neve
texto: Jacob e Wilhelm Grimm
ilustrações: Iban Barrenetxea
reconto: Gil Veloso
Editora Pulo do Gato, 2016

 

 

Contos sombrios

Você já morreu de medo de contos de fadas? Não? Tem certeza? Então alguém escondeu a verdade de você! Falo isso por lembrar de muitos contos de fadas horripilantes, tão macabros que minha mãe nem ousava me contar! Por isso só fiquei sabendo da existência de boa parte deles quando aprendi a ler. Desde então acompanho a trajetória desse contos sombrios e sangrentos. Eles tiveram sua fase mais suave e purificada por um bom tempo. Hoje em dia o véu que cobria o grotesco está desaparecendo; e é isso que faz Adam Gidwitz em seus recontos ‘Um conto sombrio dos Grimm’ e ‘Outro conto sombrio dos Grimm’.

Interessante notar que os contos escolhidos não são apenas aqueles coletados pelos Irmãos Grimm. As páginas que Adam reescreve trazem também os sanguinolentos
contos coletados pelo folclorista Australiano Joseph Jacobs, que recolheu contos folclóricos ingleses, celtas e outras tantas histórias de dar medo!

Tenho certeza de que você está se perguntando: e por que só o nome dos Grimm aparece na capa? Eu suponho que seja por razões mercadológicas e também pelo fato de Joseph Jacobs não ser tão popular quanto os Grimm. Mas se eu disser que contos como João e o Pé de Feijão, Os três porquinhos, O pequeno polegar e O velho do saco  foram coletados pelo senhor Jacobs? Isso mesmo! Esses contos foram contados e recontados várias e várias vezes e a gente nem imaginava a origem deles!

Deixemos os fatos históricos de lado e vamos às traduções de Rodrigo de Abreu. Toda fluidez da narrativa de Adam Gidwitz e seu estilo de contação de histórias foram brilhantemente transpostos para as páginas que lemos aqui no Brasil. E se você pegou essa obra prima da tradução das mãos de um amigo, vai certamente correr para garantir o seu exemplar.

Image.png      outro conto sombrio

Um conto sombrio dos Grimm e Outro conto sombrio dos Grimm

Adam Gidwitz

Tradução de Rodrigo de Abreu

Galera Junior, 2016