O fio da palavra : o enredamento do leitor

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por Claudete A. Segalin

Livros são palavras silenciosas que repercutem fundo no leitor, fazendo-o desejar e repetir a leitura de um mesmo livro ou, às vezes preferem  tê-lo à cabeceira pelo prazer de reencontrar imagens, arranjos metafóricos, construções inusitadas decorrentes da habilidade do escritor em  reunir palavras muito batidas, sobre as quais não se percebe mais nada de novo.

O último livro do poeta e escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós, O fio da palavra (2012) além de proporcionar emoções dessa natureza, é um livro  em que se observa uma  sintonia perfeita entre texto e apresentação; a  capadura, escura e o formato discreto, parecem indicar que o projeto gráfico encontrou o ponto de equilíbrio entre conteúdo e forma, ou seja, a apresentação conveniente para um candidato a  prêmio e à estante dos clássicos(por que não?!…).Sua leitura  instiga o leitor a desvendar as dimensões da palavra- uma das grandes preocupações do escritor e poeta mineiro.Em primeira pessoa, Bartolomeu não conta nada ao leitor, antes, ordena de tal modo a seqüência das palavras no texto, que inevitavelmente incita o leitor a relê-lo  desejando descobrir como e qual foi o momento em que foi fisgado por essa  linguagem simples, às vezes até piegas, que, como a aranha, vai puxando os fios da palavra, extraindo-lhe a  essência poética e  metaforizando-a por meio da delicadeza e de seus fios.Mais uma vez  Bartolomeu brinda o leitor com um livro  de cabeceira. Bartolomeu/aranha tece como esta, um emaranhado de fios que encantam e, enredam o leitor na poesia que descobre em palavras do dia-a-dia, que só quem sente coceira nos dedos  pode fazê-lo.

Campos de Queirós, Bartolomeu – O Fio da palavra; ilustrações de Salmo Dansa. Rio de Janeiro: Galera Record, 2012-09-09

A arte da narração

Por Dirce Waltrick do Amarante
Em 08/01/2013
Fonte: http://www.musarara.com.br/a-arte-da-narracao

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Em 1936, Walter Benjamin afirmou que, “por mais familiar que seja seu nome, o narrador não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva. Ele é algo distante, e que se distancia cada vez mais.” Benjamin anunciava que a experiência de narrar estava em vias de extinção, pois “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente”, ou seja, é cada vez maior o número de pessoas pobres em histórias, embora ricas em informações, como diz o filósofo alemão. A diferença entre a informação e a narrativa/história é que a primeira é direta, tem um ponto a atingir e aí ela se esgota, já “com a narrativa é diferente: ela não se esgota. Conserva sua força reunida em seu âmago e é capaz de, após muito tempo, se desdobrar”, conclui Benjamin.

Se reconsideramos hoje o sombrio diagnóstico de Benjamin, poderemos talvez dizer que, atualmente, voltamos a nos preocupar com, e a nos indagar sobre, a figura do narrador. Segundo o poeta brasileiro contemporâneo Bráulio Tavares, “contar histórias é algo tão importante em nossa cultura que todo mundo quer aprender e todo mundo acha que sabe ensinar. É uma atividade que envolve raciocínio e intuição”.  Para o poeta, a parte que envolve raciocínio pode ser ensinada, ou transformada em regras, mas a parte que envolve a intuição fica a cargo de cada um de nós.

O fato é que uma nova geração voltou os olhos à tradição milenar de contar histórias e parece interessada tanto em praticar quanto em ensinar essa arte que implica, além de raciocínio e intuição, também uma técnica.

No final do ano passado, a contadora de histórias catarinense Aline Maciel publicou Cada um conta de um jeito (Florianópolis, Cia. Mafagatos). Nesse belo e oportuno livro de estreia, Aline dá dicas valiosas para todos aqueles que pretendem excursionar amadoramente, ou até mesmo profissionalmente, pela arte de narrar. Segundo Aline, “todos nós tivemos contato com a narrativa oral e todos sabemos narrar. Porém, há técnicas para a contação de histórias e essas técnicas podem ser estudadas e praticadas.”

Algumas dessas técnicas dizem respeito, por exemplo, à escolha do figurino e do cenário, ao uso da voz e dos gestos do narrador.

Quanto aos gestos, Aline afirma que eles devem ser naturais: “em um primeiro momento, não se preocupe em fazer gestos. Isso pode fazer com que pareça artificial e não será agradável nem para quem conta e nem para quem escuta e vê.”

Podemos, assim, comparar um bom narrador a um bom escritor, que é descrito, num breve ensaio de Walter Benjamin, como aquele que não diz mais do que pensa, por isso, prossegue o filósofo, “quanto mais mantiver a disciplina e evitar movimentos supérfluos, desgastantes e oscilantes, tanto mais cada postura do corpo satisfará a si própria e tanto mais apropriada será sua atuação”.

Aline sublinha ainda que “é através da voz que o contador irá cativar o ouvinte e fazer com que as imagens de uma história ganhem vida na imaginação de cada um”. A voz foi objeto de um comentário brilhante da escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, que, em seu livro Cantores de leitura, lembra: “[...] é preciso cuidar a leitura, porque a voz – se for incerta no seu deserto – mata, mata a leitura e o texto ­­­­­­­­­­[...]”, opina a autora portuguesa.

A voz estaria diretamente relacionada com o interesse do narrador pelo texto. Sem o menor interesse pelo texto, “com voz menos vibrante, [os narradores] ficam parados, a olhar os outros, porque são assim – baços”. Um conselho que Llansol dá aos narradores é que “aprender a leitura tem um método, mas não obedece a um método. Depende da infinita variedade dos livros, ou seja, da corrente que flui, e nos mergulha nela, seja qual for o suporte.”

Aline segue esse mesmo ideal e aconselha que todo contador de histórias deva ser, antes de tudo, um leitor e que “[...] não existe nada mais gratificante que encontrar uma história que queremos partilhar com os outros. Se gostamos dela, se queremos compartilhar, a contação fará sentido. Do contrário, se somos obrigados a contar [...], a história perde seu maior valor: o do encantamento.”

Em Cada um conta de um jeito, Aline oferece, além de técnicas, algumas histórias para aumentar o repertório do “candidato” a narrador. O livro de Aline é um começo precioso para os pretendem mergulhar na arte de narrar.

 

Dirce Waltrick do Amarante é professora do curso de artes cênicas da UFSC. Autora de As antenas do caracol: notas sobre literatura infantojuvenil (Iluminuras, 2012). E-mail:dwa@matrix.com.br

Viagens no mar de histórias

Inicio convidando a todos para uma viagem em direção a um mundo sem fim: o mundo da literatura. Para embarcar, um passaporte é necessário: a disponibilidade para a aventura, com os sentidos abertos para a imaginação e a fantasia.

“A Aventura de Chu
Era uma vez dois amigos que viajavam pelo mundo. Heng e Chu passaram por países desconhecidos, rios, vales e montanhas.
Um dia, quando atravessavam uma floresta, viram que logo ia desabar uma tempestade. Procuraram um abrigo e viram ao longe um velho templo em ruínas. Correram para lá e foram recebidos por um velho monge muito sorridente. O monge lhes disse:
_ Amigos, quero que vocês me acompanhem até a sala dos fundos do templo. Lá está representada uma obra de arte como não existe igual. Venham ver o bosque de pinheiros que está pintado na parede do fundo do templo.
Ele se virou e foi devagar, arrastando os chinelos. Os dois amigos o seguiram. Quando chegaram à última sala, ficaram maravilhados. De fato, era uma magnífica obra de arte. Começaram a andar desde o começo da pintura, observando as árvores de todos os tamanhos e tons de verde. Perceberam que além dos pinheiros havia outras figuras, montanhas ao fundo, um sol dourado iluminando o céu, jovens em grupo, em pares, conversando, colhendo flores. Chu ia na frente e, quando chegou bem no meio da parede, parou. Ali estava uma jovem tão linda que o deixou boquiaberto. Era alta, elegante, os olhos negros pareciam duas jabuticabas, a boca era como um morango maduro; tinha um cesto no braço, colhia flores e seus cabelos eram longos e negros, penteados em duas grossas tranças até a cintura. Chu apaixonou-se imediatamente por ela e ficou ali parado, contemplando cada detalhe daquela jovem tão bela.
Chu não sabe quanto tempo ficou ali, até que de repente sentiu como se estivesse flutuando, seus pés não tocavam o chão. Olhou à sua volta e viu um sol dourado iluminando o céu, ouviu vozes e percebeu que eram das jovens que ele tinha visto pintadas na parede. Foi então que se deu conta de que estava dentro do quadro.
Quando se refazia do susto, viu a jovem de quem tinha gostado, um pouco mais adiante. Ela olhou para ele, sorriu, jogou as tranças para trás e saiu correndo. Ele a seguiu até que ela chegou a um jardim cheio de pequenas flores coloridas, que ficava em volta de uma casa toda branca. Ela atravessou o jardim e parou diante da porta. Quando Chu se aproximou, eles entraram e ficaram parados em pé, um diante do outro, bem no meio daquele aposento silencioso.
Eles se abraçaram, e Chu sentiu que amava aquela jovem como se fosse desde sempre. Então, eles foram para a cama e na manhã seguinte eram marido e mulher. A jovem se levantou e foi pentear seus longos cabelos, mas agora não fez as duas tranças, e sim um coque na nuca, como era costume das mulheres casadas. Enquanto conversavam, ouviram barulhos estranhos lá fora, passos pesados, som de correntes. A jovem ficou pálida, fez um sinal para Chu não dizer nenhuma palavra. Foram até uma fresta da porta e espiaram para fora.
Viram um ser descomunal, inteiramente vestido com uma armadura de ferro. Com olhos ameaçadores, ele carregava na mão um chicote, grilhões e uma corrente. Ele disse para as jovens do quadro que estavam à sua volta, apavoradas:
_ Afastem-se. Sei que há um ser humano entre nós, não adianta esconder. Agora vou vasculhar dentro da casa, tenho certeza de que ele está lá.
A jovem ficou mais pálida ainda e disse:
_ Chu, depressa, esconda-se embaixo da cama, não dá tempo de mais nada
Chu mal teve tempo de correr para debaixo da cama quando viu a porta se abrir. Duas botas de ferro entraram para dentro do quadro.
Enquanto isso, Heng olhava o quadro, e deu por falta do amigo. Perguntou ao velho monge onde ele estava e o velho monge respondeu:
_ Não se preocupe, ele não foi muito longe, não.
Batendo com os dedos na parede, chamou com voz tranqüila:
_ Volte, senhor Chu. Já é tempo de encontrar seu amigo outra vez!
Nesse momento, Chu foi saindo de dentro da parede.
_ Onde você esteve? _ perguntou Heng.
_ Eu não sei _ disse ele. _ Estava embaixo da cama, ouvi um barulho terrível, saí para ver o que era e sem saber como, cheguei de novo nessa sala.
Os dois amigos voltaram a olhar o quadro desde o começo para se despedirem dele. Chu ia na frente; quando chegou no meio da parede, aquela jovem estava lá. Alta, elegante, os olhos como duas jabuticabas, a boca lembrava um morango maduro e ela colhia flores. Mas seus cabelos não estavam mais penteados em tranças, agora eles formavam um coque na nuca, como era o costume das mulheres casadas, naquele lugar.
Os dois amigos desceram as escadarias do templo em silêncio. A chuva já tinha parado e eles se foram sem dizer palavra. A viagem continuava.”
A nossa viagem também poderia continuar, mas agora uma parada se faz necessária. Cada um de nós, enquanto ouvia a leitura, construiu através dos seus sentidos as imagens que as palavras suscitaram. Cada um de nós visualizou os dois personagens, a princípio com linhas um pouco difusas, mas logo dando-lhes os traços orientais sugeridos pelos nomes, Heng e Chu, que foram reforçados pela aparição do templo em ruínas e a recepção dos personagens pelo velho monge. O cenário, antes difuso, móvel e impreciso pela sucessão de lugares percorridos – países desconhecidos, rios, vales, montanhas -, se concretizou: nossos personagens estão num país do Oriente, ao abrigo da tempestade, protegidos também pela sensação de paz que um templo sempre sugere, mesmo com o apelo à curiosidade e ao mistério contidos no convite do velho monge. Pouco a pouco o narrador envolve o ouvinte/leitor na aventura de Chu, fazendo-nos criar e pintar o grande quadro, a paisagem que os olhos de Chu vêem, as árvores, as pessoas, suas roupas, seus penteados, as flores… E acompanhamos a imersão de Chu na contemplação da obra de arte, sua imersão na experiência estética, que passa pela aceitação do chamado amoroso, pela vivência da experiência sensual, sexual. Ele mergulha de forma tão intensa nesse outro universo que não sabe explicar o que lhe aconteceu, como lá esteve e de lá voltou. Mas o narrador dá a ele, personagem, a certeza da experiência, – a jovem tem agora os cabelos presos num coque à maneira das mulheres casadas daquele lugar – e a nós, leitores e ouvintes do texto, o suspense diante do enigma. Estamos mergulhados na dúvida, no mistério, no encantamento do reino das possibilidades abertas pelo texto literário.
Muitas outras coisas poderiam ainda vir à tona, se continuássemos a escavar as várias camadas de significados que se apresentam nesse texto: mas o que me interessa ressaltar agora é a interprenetração do real e do maravilhoso na linguagem e na construção do texto de literatura. A literatura – seja como poema, conto, fábula, novela, romance ou texto teatral – pede a cada leitor que suspenda a descrença, que se deixe envolver pela verdade de um outro mundo, real na verossimilhança, real na fantasia. E todos nós, seres humanos de todas as idades, temos necessidade da fantasia, da ficção, da imaginação. Ou como disse o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar: “uma das funções do artista é criar o maravilhoso (ou o surpreendente), pela simples razão de que não encontramos no mundo maravilhas em quantidade suficiente para satisfazer a fome de maravilha que habita as pessoas.”
Mas é preciso também conceder ao texto literário, ao livro de literatura, o tratamento especial que ele merece como obra de arte da linguagem. Talvez porque criada com as mesmas ferramentas – as letras do alfabeto, as palavras – utilizadas em um texto informativo, ou técnico, ou didático, muitos de nós pedimos à literatura uma certeza, uma “sensatez” que ela não pode nos dar. Jacqueline Held, em O imaginário no poder, diz: “Literatura didática e literatura moralizadora manifestam certa desconfiança para com a ficção. Elas lhe recusam o direito de existir enquanto tal. Por que os adultos impõem à ficção transmitir um ensinamento? A ficção se assemelha a um brinquedo. A ficção responde a uma necessidade muito profunda da criança: não se contentar com sua própria vida. A ficção não deveria abrir todas as espécies de portas, permitir à criança imaginar outras possibilidades de ser para que possa, finalmente, escolher-se?”
E aqui já passamos para uma das preocupações de todos nós que aqui estamos, a formação do leitor, principalmente enquanto ainda criança.
O pesquisador Gérard Chauveau , numa entrevista intitulada A criança e a leitura resume: “a aprendizagem da leitura implica que a criança compreenda qual é o sentido e a finalidade dessa atividade.” A fase de 2 ou 3 anos até 6 anos é essencial, diz o pesquisador, porque é aí que se dá a compreensão do que é a leitura e as crianças que se familiarizaram com o escrito antes mesmo de entrar na pré-escola tornam-se, quase todos, bons leitores em seguida. Desde os 2 anos praticamente todas as crianças manifestam interesse quando lhe são apresentados livros de histórias e que textos da literatura para crianças devem ser utilizados nas atividades das creches, tanto quanto a linguagem oral. Essa primeira fase termina com a aquisição de duas grandes competências: de um lado, a competência cultural, que é a vontade de ler: a criança entendeu quais são os benefícios que ela pode retirar da leitura, ela se apropriou das principais funções do ler-escrever; de outro, a competência cognitiva, que é o ter compreendido o princípio essencial da escrita, o escrito como a representação gráfica dos sons, da palavra oral.
E diz mais, diz que a criança, a partir dos 6 anos, aprende a ler num espaço de aprendizagem que compreende não só a escola, mas também a família e o meio social ao redor da escola. Para estimular o trabalho conjunto, sugere coisas bastante simples: os pais devem ajudar a criança a reler o que ela havia lido na escola e inscrevê-la na biblioteca municipal: as taxas de fracasso na aprendizagem da leitura diminuem extraordinariamente quando professores e pais trabalham juntos. A repetição do ato de ler conduz à automatização: quanto mais a criança lê, melhor e mais facilmente ela o faz. Em conclusão, o melhor meio de aprender a ler bem é ler muito.
É, pois pelo exemplo e pelo estímulo à curiosidade que se forma um leitor, e os primeiros exemplos da criança são os pais e os professores. E as questões surgem para todos nós: somos adultos leitores? Somos professores leitores? Leitores de literatura? Temos e facilitamos acesso ao livro de literatura às nossas crianças? Lemos com elas, lemos para elas? Conversamos sobre livros, personagens literários, escritores, belos livros, lindas ilustrações, com nossos alunos, nossos filhos, as crianças e os jovens com quem convivemos? Exigimos boas bibliotecas, com bons livros de literatura, em nossos bairros, nossas cidades?
Se a resposta à maior parte dessas perguntas for negativa, estaremos contribuindo para que um imenso patrimônio cultural a que todos temos direito continue sendo negado a uma imensa parcela da nossa população. Não podemos continuar esquecendo que a literatura tem lugar especial na formação do leitor, porque a linguagem literária da poesia e da prosa de ficção (romance, conto, novela, fábula, contos de fadas, narrativas da tradição oral, recontos, repito.) é comum a todos e como diz o professor Antonio Candido, tem três funções essenciais:
a) ela atende à nossa imensa necessidade de ficção e fantasia;
b) Sua natureza é essencialmente formativa, e afeta o consciente e o inconsciente dos leitores de maneira bastante complexa e dialética, como a própria vida, em oposição ao caráter pedagógico e doutrinador de outros textos;
c) tem o potencial de oferecer ao leitor um conhecimento profundo, tal como faz, por outro caminho, a ciência.
O direito à literatura deve, pois, ser entendido como um direito fundamental do cidadão, e termino com as palavras de Harold Bloom (Veja, 31/01/2001) em resposta à questão: – Por que ler?
“A informação está cada vez mais ao nosso alcance. Mas a sabedoria, que é o tipo mais precioso de conhecimento, essa só pode ser encontrado nos grandes autores da literatura. Esse é o primeiro motivo por que devemos ler. O segundo motivo é que todo bom pensamento, como já diziam os filósofos e os psicólogos, depende da memória. Não é possível pensar sem lembrar – e são os livros que ainda preservam a maior parte da nossa herança cultural. Finalmente, e este motivo está relacionado ao anterior, eu diria que uma democracia depende de pessoas capazes de pensar por si próprias. E ninguém faz isso sem ler”.

Os fantasmas de Eglê

Eglê Malheiros é uma escritora bissexta, ou seja, publica pouco e com muito tempo entre um livro e outro. E quem perde somos nós, os leitores, uma constatação que seu último livro torna flagrante. Os meus fantasmas, publicado pela Editora Movimento, de Porto Alegre, é um desses livros que se lê em estado de graça, presos aos acontecimentos que nos surpreendem e envoltos pela sedução da linguagem de uma narradora experiente, ágil e ousada.

Trata-se de uma história, na verdade uma pequena novela, catalogada como literatura infantil e juvenil, com características que a filiam a melhor linhagem dessa produção no Brasil e permitem que se questione alguns dos pressupostos desse gênero literário, ao mesmo tempo em que reafirma a máxima de que a boa literatura agrada a leitores de qualquer idade. Escrita a pedido de um neto, que queria uma história de fantasma, a dedicatória engloba todos os outros netos e é também extensiva a três pessoas que presumo serem irmãos da autora, pois “compartilham os fantasmas”, e a Salim Miguel, marido e companheiro sempre. Desde a primeira leitura, comecei a ver a obra como uma espécie de “léxico familiar”, como um resgate da memória pessoal e familiar e um legado para a nova geração da infância, da cidade, da linguagem e cultura da época, dos valores éticos e políticos, muito bem trazidos para os dias atuais, onde se encaixam atualizados e reavivados.

De cara, o impacto, o estranhamento causado pela inversão que prenuncia quem é a protagonista da história, que não podia dormir direito por causa dos barulhos comuns do dia e se sentia mal à noite, quando saía para viver a sua vidinha, pela falta de sono. O suspense só é desfeito no terceiro dos nove capítulos, depois que os demais personagens já nos foram apresentados ou reapresentados, pois nos são familiares e mesmo velhos conhecidos: o Boi da cara preta que passa a ser o Cara -; a charmosa gata Leti, de batismo Laetitia Felix Catus; o cachorro Mito, de basto pêlo fulvo e o Negrinho do Pastoreio que, em busca de um nome que lhe conceda a digna cidadania, acaba por escolher chamar-se Dilvanino Espártaco Negrinho do Pastoreio. A líder é Momó, uma elegante, vaidosa e sábia fantasminha, elo atemporal, mítico. E é no cotidiano dessa turminha que tudo acontece, no vai-e-vem entre o real e a fantasia, o concreto e o imaginário, o passado que se torna presente porque eterno.

A narradora é uma cúmplice bem-humorada dos pequenos leitores e se encarrega de mantê-los atentos, atraindo-os com sutis digressões explicativas, respeitando a inteligência de todos através do desafio do vocabulário utilizado.

Sim, porque a ousadia maior talvez seja a da linguagem. Eglê usa um registro literário elevado e o mescla com a última gíria em voga nas rodas juvenis e na televisão, com o coloquial da gente comum e sem esquecer alguns regionalismos. As expressões papo furado, ledo engano, lufa-lufa, vir na volada convivem com dias de fastígio, soerguer a cabeça e claridade irridescente, além da sofisticada gradação chamar – invocar – solicitar – conclamar. Perambular e aboletar-se com o topar e o garrar a estrada, somados ao piscar de olhos para o leitor de Homero, com os dedos rosados da aurora e para o das revistas em quadrinhos e cinéfilos com o forte Tarzan. Ela nos leva a uma festa, presumo que ocorrida no fim do século XIX, ali no palácio da praça XV, e o vocabulário dos personagens é o da época, adequado ao conjunto verossímil do cenário e do enredo, e perfeitamente compreensível a qualquer leitor contemporâneo.

O recurso aí é a ironia, a caricatura e o pastiche. Muitos outros exemplos poderiam ser levantados, mas basta resumir dizendo que a autora faz um verdadeiro passeio pelos diferentes registros da língua portuguesa e em nenhum momento é pedante ou inadequada, pois não carrega no erudito ou no literário nem faz concessões ao pobre tatibitate da linguagem supostamente infantil ou juvenil.

Vocabulário seleto e culto; personagens clássicos interagindo com gente comum numa história grande, com variação de cenário e época; metalinguagem e intertexto; nenhuma ilustração: eis aí algumas “anti-qualidades” que um manual de literatura infantil e juvenil apontaria para um texto. Mas só os manuais simplistas, graças a Deus! Os fantasmas de Eglê Malheiros nos reintroduzem nas melhores famílias de narradores, onde estão as boas histórias de todas as épocas e lugares. Só nos resta pedir que Mnemósina, a adorável Momó, musa dos artistas, continue inspirando Eglê e que outro livro venha logo.

(Artigo primeiramente publicado em O Balainho,
edição nº 16 – maio de 2003, sessão Armazém Literário.)

Título: Os meus fantasmas
Autora: Eglê Malheiros
Editora: Movimento, 2002

Andersen. Again?

 O perseverante soldadinho de chumbo é um conto de fadas? Ele não tem príncipe garboso, nem termina com “foram felizes para sempre”.

Ah! Mas tem tanta fantasia…

Ao mesmo tempo é metáfora para o que acontece na vida real. A trama pode ser vista como circular, simbólica, reafirmando a tese de que nada vai sem volta, de que o começo está      perto do final, de que a partida está ligada à chegada.
O herói é alguém tão, tão modesto, é um soldado; e sequer é um soldado real, mas um pedaço de chumbo na forma de um. E nem foi feito direito, faltou chumbo e ficou só com uma perna.
Esse personagem ordinário, entretanto, mostra aquela coragem ainda mais admirável por despontar apesar do medo. É justamente a valentia de superar vicissitudes, mesmo quando se sente medo e frágil, a verdadeira coragem.
O que há de novo nesse tão conhecido conto escrito por Hans Christian Andersen no século XIX?
É a história dessa edição de 2011 que faz dela algo significativo na Literatura Brasileira. E na arte.

Traduzida diretamente do dinamarquês e com projeto gráfico de Livro Álbum, a nova versão do conto foi concebida no âmbito de um projeto da Sociedade Amantes da Leitura. A publicação foi possível graças ao talento e ao compromisso do escritor Tabajara Ruas e da artista plástica Jandira Lorenz, assim como ao entusiasmo e profissionalismo da equipe da Peirópolis, que graciosamente editou a obra.
O lançamento do livro ocorreu na Biblioteca Barca dos Livros, no dia 02 de abril de 2011, durante as comemorações do Abril com Livros. Este programa, que abarca o projeto de publicação de uma coleção de contos de Andersen (o primeiro foi O Patinho Feio) é realizado anualmente desde 2005, no dia Internacional do Livro Infantil, que comemora a data de nascimento de Hans Christian Andersen.
Neste Perseverante Soldadinho de Chumbo, os desenhos e colagens conversam com o texto leve e poético de Tabajara Ruas, sobre o boneco de chumbo perdido de amores por uma bailarina de papel, sobre seu salto involuntário pela janela e uma perigosa jornada pelo desconhecido.  Tabajara Ruas, como sócio fundador da Sociedade Amantes da Leitura, cedeu os direitos da tradução para a sociedade e Jandira Lorenz, conceituada artista plástica de Santa Catarina, presenteou a biblioteca com os originais das ilustrações.

por: Nadir Ferrari

Título: O Perseverante Soldadinho de Chumbo
Autor: Hans Christian Andersen
Tradução: Tabajara Ruas
Ilustração: Jandira Lorenz
Editoria: Peirópolis