Griôs: cultura e história da África

 

O texto de Toques do Griô é instigante, tanto para quem nunca ouviu falar nos griôs como para quem pensa que sabe quem são eles. Neste sentido, tem ótimo valor heurístico, no sentido de ser capaz de gerar novas idéias a partir de discussões entre pontos de vista diferentes. As dúvidas vão surgindo a partir da leitura e suscitando o desejo de saber mais, de buscar mais conhecimento em outras fontes. A narração labiríntica poderá desagradar ao leitor mais apressado, que espera que o escritor vá direto ao ponto. Pode-se dizer que utiliza a abordagem jornalística ao inverso – é preciso ir até o final para entender o propósito do livro. Ele pode ser considerado como um trabalho acadêmico, que lida com um conceito complexo, situado geográfica, cultural e historicamente. Heloisa Pires Lima, uma das autoras, é doutora em Antropologia e Leila Leite Hernandez é doutora em História da África.

O livro apresenta 21 “cordas”, em cada corda um conto, ou parábola, ou elegia, e a ligação entre um conto e outro é sutil.

A Kora é uma grande harpa africana feita com meia cabaça recoberta de pele de bezerro e tem 21 cordas. Segundo as autoras, este é o instrumento utilizado pelos griôs no noroeste africano para exaltar a memória de Sundiata Keita, e para lembrar o griô Bala Fasekê Kouyatê, que ensinava sobre o poder da palavra para unir e sua responsabilidade na construção e manutenção da paz. Já o Balafom, instrumento também tocado pelos griôs, tem 20 teclas de madeira sobre cabaças que funcionam como caixas de ressonância e era originalmente chamado Sosso Bala.

Na segunda corda, cujo título é Escutem as Línguas, a história ensina que o griô é um contador de histórias que conhece e exalta pessoas, famílias, linhagens, clãs, o país. Esta secção ensina ainda que cada soberano tem o seu griô.

Na quarta corda, de título Escutem o Balafom, o conto ensina que um griô, ou diéli, é também um músico e embaixador: às vezes parte em missão para seu soberano e sabe tocar o balafom.

A quinta corda, Escutem o dia a dia na aldeia dos griôs, evidencia que a função do griô, é hereditária: ele é filho de pai griô e mãe griote. Além disso, ele passa por um período de iniciação, quando recebe uma educação especial, aprende a exercitar a memória e como se vestir adequadamente. Deve conhecer mais de 1000 contos ou ser perito na arte dos provérbios. Desenvolve saberes aprofundados sobre a natureza humana, animal e vegetal. Conhece a arte da guerra para exercitar a paz e cultiva o compromisso com a verdade. A família griô administra as primeiras lições práticas, as primeiras músicas. Um pequeno conto pode ensinar sobre as virtudes, a audácia, a valentia, a solidariedade, a coragem, o amor, a verdade. O aprendiz começa a confeccionar seu próprio instrumento musical desde a mais tenra idade. Toda festa, casamento ou outra cerimônia é para ele um espaço de prática.

Na sétima corda: Escutem o rugido do Leão! O griô aparece como um conselheiro do rei. A partir daí vai se descortinando a saga do herói que depôs o soberano que oprimia o povo. O guerreiro libertador é Sundiata Keita que, com seu griô Bala Fasekê, funda o império do Mali. A história deles vem entremeada de histórias de outros personagens.

A sequência e o estilo literário dos contos fogem ao padrão ocidental, talvez para preservar o formato da narração oral de contadores africanos.

Os sentidos das histórias tornam-se compreensíveis de forma mais completa quando se chega à última parte, que situa o antigo Império Mali no mapa atual da África e explicita termos utilizados antes, como Mandem, Mandinga, Keita, etc., menciona fatos históricos e torna mais claro o significado do termo griô.

De acordo com as leitoras, a palavra griô passou a ser utilizada no século XVII. Antes disso, o termo utilizado no antigo Império do Mali era diéli, cujo significado principal reside na idéia de sangue vital, no sentido de que o diéli faz circular a vida social. Nos países vizinhos outros nomes eram empregados. Alguns pesquisadores concluem que os portugueses chamavam de criado aquele que aparecia sempre ao lado de um soberano e falava por ele. O som da palavra criado ouvido por viajantes franceses (cri >>gri) teria gerado a grafia griot em francês. Outros pesquisadores defendem que o significado da palavra está vinculado ao verbo gritar, associado a louvações. E há ainda a idéia de que o termo se originou nas próprias línguas africanas em circulação.

Este livro é sem dúvida leitura relevante para interessados em história da África, em música africana e em tradição oral de narração de histórias.

Os desenhos realistas de Enkon K. Tada são bonitos e ilustram bem o texto.

Para se ter um vislumbre das informações interessantes veiculadas, reproduzo aqui um trecho extraído da 5ª corda, Escutem o dia a dia na aldeia dos griôs, e a seguir outro da 15ª corda, Escutem as griotes:

…Nas manhãs de Fadama (uma das aldeias de griôs, próxima ao Niger) me ensinaram todas as récitas que conheço. É assim que guardo a história das famílias, podendo ser a do rei ou a do noivo que se casou nesta tarde. Eu conheço o passado para relembrá-lo no presente. Não deixo esquecer as parcerias estabelecidas noutros tempos e recordo a amizade. Alianças do passado devem ser louvadas para sempre. Eu gravo na memória profunda a linhagem dos soberanos. Serei eu que, um dia, farei o grande chefe escutar a longa história de enlaces dos quais descende. Sem os griôs, os nomes dos reis cairiam no esquecimento… Nós somos bolsas carregadas de palavras, carregamos os segredos que conhecemos desde a fundação do Mandem. Nós guardamos as doze chaves do Mandem…

…Fatu era griote. É assim que são chamadas as mulheres das famílias griôs. As griotes modernas seguem a tradição da aprendizagem do canto, da dança, do instrumento que tocam. Diferentemente dos homens, a transmissão de saberes e a educação são realizadas de mãe para filha. As griotes também participam de sociedades secretas. Elas exercem funções diferentes e têm interdições diferentes das dos griôs…

 

Título: Toques do Griô
Autoras: Heloísa Pires Lima e Leila leite Hernandez
Editora: Melhoramentos 2011

 

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